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HIPERTEXTO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Gislaine Gracia MAGNABOSCO (UEL) ISBN: 978-85-99680-05-6 REFERÊNCIA: MAGNABOSCO,

HIPERTEXTO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Gislaine Gracia MAGNABOSCO (UEL)

ISBN: 978-85-99680-05-6

REFERÊNCIA:

MAGNABOSCO, Gislaine Gracia. Hipertexto:

algumas considerações . In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS.

3, 2007, Maringá. Anais

Maringá, 2009, p. 1389-

1398.

1. INTRODUÇÃO

Na comunicação mediada por computador, as questões de linguagem assumem um papel fundamental já que este meio eletrônico faz uso de uma linguagem híbrida que agrega a linguagem desenvolvida pelos outros meios de comunicação em massa e também apresenta novos gêneros de texto, hipertextos, que culminam em novas estratégias de produção e de leitura. Como lembra Marcuschi (2001), essas novas formas textuais afetaram o modo como escrevemos, proporcionando a distribuição da inteligência e cognição, diminuindo a fronteira entre leitor e escritor, tornando-os parte do mesmo processo e, fazendo com que a escrita seja uma tarefa menos individual para se tornar uma atividade mais coletiva e colaborativa. Tudo isso se tornou possível graças a convergência entre a mídia, a Internet e a utilização de tecnologias de realidade virtual digital que possibilitaram a transmissão de fonte aberta e descentralizada, a livre divulgação, a interação fortuita, a comunicação propositada e a criação compartilhada; o que para Castells (2003, p. 165) representaria a promessa da multimídia: a emergência de um hipertexto eletrônico numa escala global. No presente trabalho, procurarei analisar brevemente o que seria esse hipertexto eletrônico: a origem do termo, sua estrutura, sua linguagem, sua relação com as formas clássicas de produção textual; justificando tal estudo pela importância destes na prática educativa: interatividade, acesso à informação e comunicação dinâmica que proporcionam.

2. TEMPO E CIBERESPAÇO

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Teilhard (apud Santos, 2001) afirma que o espaço físico não é suficiente para responder à intensidade do pensamento humano, portanto, é preciso criar meios de comunicação que operam semelhantemente à mente humana. Assim, com a criação dos novos meios de comunicação um novo espaço surgiu. Esse espaço é o espaço virtual que não pode ser controlado totalmente por instituições, partidos, grupos, ideologias, etc. Com o isso, o espaço homogêneo e delimitado por fronteiras geopolíticas foi eliminado e, igualmente, o tempo cronológico e linear.

O processo de criar significados no contato com a linguagem virtual incorpora todos os aspectos físicos e psicológicos da pessoa e a interação dela com os outros em um certo ambiente que vai além do espaço físico em que normalmente a pessoa se comunica. O ciberespaço é considerado o “espaço virtual”, onde a presença física (como normalmente é concebida) não é necessária pois a comunicação por si mesma oferece à pessoa um modo novo de manipular a mensagem, criar, recriar, impactar os outros, com técnicas que o computador, por exemplo, oferece hoje. (SANTOS, 2001).

O espaço virtual cria, então, um novo lugar de comunicação, alterado pela

velocidade, imagem, digitalização do texto, que acaba por afetar as pessoas e o modo

como elas se comunicam e vivem e, conseqüentemente, a cultura, as instituições e a ética.

O termo ciberespaço (cyberspace) foi usado pela primeira vez, em 1984, pelo

escritor de ficção científica William Gibson, em sua novela “Neuromancer”, na qual descreveu um ambiente eletrônico em que a informação e os programas podiam ser vistos e manipulados no mesmo momento em que eles eram fisicamente concebidos (forma, cores, movimentos). Para Santos (2001) o ciberespaço é como a realidade virtual, que está repleta de imagens representadas nas formas eletrônicas, e que simbolicamente representam o mundo físico. É, portanto, real e imaginário; um tipo de sonho coletivo e um lugar onde pessoas se encontram e partilham experiências que interferem seriamente na vida delas e deixam conseqüências em suas existências (comunicação não neutra). Bolter (apud Marcuschi, p.82, 2001) descreve o hipertexto como um novo espaço de escrita, uma nova área que vai além do espaço da folha de papel e além do espaço do livro e, além disso, é uma realidade apenas virtual. É um espaço aberto, sem margens e sem fronteiras. Marcuschi (ibdi), ao refletir acerca dessa caracterização, prefere conceituar esse espaço como um espaço cognitivo que exige a revisão de nossas estratégias de lidar com o texto; sobretudo as estratégias que dizem respeito à continuidade textual. O espaço não é mais linear e nem se comporta numa direção definida exigindo, assim, muito mais conhecimentos prévios e maior consciência quanto ao buscado, já que é um permanente convite a escolhas muitas vezes inconseqüentes. O ciberespaço é, assim, um espaço sem dimensões, um universo de informações navegáveis de forma instantânea e reversível. Ele é hoje um espaço de comunhão, colocando em contato, através do uso de técnicas de comutação eletrônica, pessoas do mundo todo. Elas estão utilizando todo potencial da telemática para se reunir por interesses comuns, para bater papo, para trocar arquivos, fotos, música, correspondência. O e-mail e os chats são hoje as ferramentas mediáticas mais utilizadas pela internet. Mais do que um fenômeno técnico, o ciberespaço é um fenômeno social.

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Castells (2000) relata que essa cultura da virtualidade real associada a um sistema multimídia eletronicamente integrado, contribuiu para a transformação não só do espaço mas também do tempo em nossa sociedade; e isso se deu de duas formas diferentes: simultaneidade e intemporalidade.

As informações instantâneas em todo o globo, mesclada a reportagens ao vivo de lugares vizinhos, oferece instantaneidade temporal sem precedentes aos acontecimentos sociais e expressões culturais e isso também é possível pela comunicação mediada por computadores que possibilita o diálogo em tempo real, reunindo pessoas com os mesmo interesses em conversa interativa multilateral, por escrito. Respostas adiadas pelo tempo podem ser superadas com facilidade, pois as novas tecnologias de comunicação oferecem um sentido de instantaneidade que conquista as barreiras temporais, como ocorreu com o telefone, mas agora, com maior flexibilidade, permitindo que as partes envolvidas na comunicação deixem passar alguns segundos ou minutos para trazer outra informação e expandir a esfera de comunicação sem a pressão do telefone, não adaptado a longos silêncios. (CASTELLS, 2000, p. 486).

O tempo real do ciberespaço não é o tempo linear e progressivo da historia. Ele é o tempo de conexões, do aqui e agora. Um tempo presenteísta, correspondente ao presenteísmo social contemporâneo.

Circular pela Web, participar dos MUDs, recomeçar um jogo eletrônico ou um CD Rom, perder-se nos links dos hipertextos, voltar várias vezes à home page preferida, etc., tudo isto faz do tempo real do ciberespaço um tempo especial que impregna toda a cultura contemporânea. O tempo real da informática é correlato ao tempo presenteísta da sociedade contemporânea, encontrando, mais uma vez, a essência da cibercultura: a imbricação entre uma socialidade contemporânea e as máquinas do ciberespaço. Hoje os computadores pessoais são cada vez menos “pessoais” e cada vez mais computadores coletivos, máquinas de conexão. (LEMOS, 2002)

3. CONTEXTO, TEXTO E HIPERTEXTO

No jogo de comunicação, o sentido emerge e se constrói no contexto que é sempre local, datado, transitório. A cada instante um novo comentário, uma nova interpretação, um novo desenvolvimento podem modificar o sentido que havíamos dado a uma proposição (por exemplo) quando ela foi emitida. Assim, a cada nova leitura, a cada nova interpretação, o leitor atualiza o texto lido. Para Lévy (1993) o contexto auxilia o leitor na atualização do texto, servindo para determinar o sentido de uma palavra e cada palavra para produzir o sentido do contexto, ou seja, uma configuração semântica reticular que, quando nos concentramos nela, se mostra composta de imagens, modelos, lembranças, sensações, conceitos, etc. Com isso, quando lemos ou ouvimos um texto, hierarquizamos e selecionamos áreas de sentido, tecendo ligações entre essas áreas; conectando esse texto a outros documentos, discursos, imagens, afetos; a toda uma reserva de signos que nos constitui,

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ativando, então, toda uma memória, que forma como que o fundo sobre o qual esse texto se salienta e ao qual remete. Bezerra (apud Cavalcante, 2005, p.165) define lingüisticamente texto a partir da divisão deste em dois grandes blocos: um de cunho estritamente lingüístico, segundo os quais o texto é um conjunto de unidades lingüísticas que encerram um sentido; e outro de cunho sócio-pragmático, nos quais texto é uma unidade de sentido estabelecido entre leitor/autor, na modalidade escrita da língua, e entre locutor/interlocutor, na modalidade oral, envolvendo conhecimentos partilhados, situação, contexto, propósito, intenções, etc.

É sob a segunda definição, perspectiva funcionalista da língua, que os textos

virtuais (ou digitais) se manifestam; e são os atores da comunicação ou os elementos de uma mensagem que constroem e remodelam os universos de sentido desses textos. Um mundo de significações chamado Hipertextos. Os hipertextos não são aplicáveis somente ao ciberespaço. Na leitura clássica, por exemplo, nos textos impressos, o leitor se engaja em um processo também hipertextual, já que a leitura é feita por interconexões (à memória do leitor, às inferências do texto, aos índices remissivos, sumários e divisão de capítulos) que remetem o mesmo para fora de uma “linearidade” do texto e oferecem caminhos alternativos a serem trilhados. Segundo Lévy (1993) o hipertexto é, talvez, uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo e caracteriza-se através de seis princípios abstratos:

1. Principio de metamorfose: a rede hipertextual está em constante

construção e renegociação.

conexões de uma rede

hipertextual são heterogêneos. O processo sociotécnico colocará em jogo pessoas, grupos, artefatos, forças naturais de todos os tamanhos, com todos os tipos de associações que pudermos imaginar entre estes elementos.

3. Principio de multiplicidade e de encaixe das escalas: o hipertexto se

organiza em um mundo “fractal”, ou seja, qualquer nó ou conexão, quando analisado, pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede, e assim por diante, indefinidamente, ao longo das escala dos grupos de precisão.

4. Principio de exterioridade: a rede não possui unidade orgânica, nem

motor interno. Seu crescimento e sua diminuição, sua composição e sua recomposição permanente dependem de um exterior indeterminado. Por exemplo: para a rede semântica de uma pessoa escutando um discurso, a din6amica dos estados de ativação resulta de uma fonte externa de palavras e imagens.

5. Principio de topologia: nos hipertextos, tudo funciona por proximidade,

por vizinhança. Neles o curso dos acontecimentos é uma questão de topologia, de caminhos. A rede não está no espaço, ela é o espaço.

6. Principio de mobilidade dos centros: a rede não tem centro, ou melhor,

possui permanentemente diversos centros que são como pontas luminosas perpetuamente móveis, saltando de um nó a outro, trazendo ao redor de si uma ramificação infinita de pequenas raízes, de rizomas, finas linhas brancas esboçando por

um instante um mapa qualquer com detalhes delicados, e depois correndo para desenhar mais à frente paisagens do sentido.

2.

Principio

de heterogeneidade: os

nós

e

as

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4. ORIGEM DO TERMO E HISTÓRIA

Cavalcante (2005) menciona que a história do hipertexto na sua relação com a virtualidade apresenta dois momentos: um que remonta a primeira geração (em meados da década de cinqüenta) de sistemas computacionais, que visavam ao acúmulo de informações e a segunda geração (meados da década de 80) com a incorporação de recursos hipermidiáticos a estes sistemas e a popularização da informática e da Internet. E é na primeira geração que o termo surge, aproximadamente no início dos anos sessenta. Lévy (1993) relata que Theodor Holm Nelson, em 1964, inventou o termo hipertexto para exprimir a idéia de escrita/leitura não linear em um sistema de informática. Seu programa Xanadu, enquanto horizonte ideal ou absoluto do hipertexto, seria uma espécie de materialização do diálogo incessante e múltiplo que a humanidade mantém consigo mesma e com seu passado. O objetivo de Nelson era criar uma imensa rede acessível em tempo real, contendo todos os tesouros literários e científicos do mundo; uma enorme biblioteca em que todos, utilizando essa rede, poderiam escrever; se interconectar; interagir; comentar os textos, filmes e gravações sonoras disponíveis nesse espaço; anotar os comentários, etc.

Marcuschi (2001, p.86) menciona que

essa escritura eletrônica não-sequencial e não-linear, que se bifurca e permite ao leitor o acesso a um número praticamente ilimitado de outros textos a partir de escolhas locais e sucessivas, em tempo real; permite ao ledor definir interativamente o fluxo de sua leitura a partir de assuntos tratados no texto sem se prender a uma seqüência fixa ou a tópicos estabelecidos por um autor. Trata-se de uma forma de estruturação textual que faz do leitor simultaneamente co-autor do texto final. O hipertexto se caracteriza, pois, como um processo de escritura/leitura eletrônica multilinearizado, multisequêncial e indeterminado, realizado em um novo espaço de escrita.

A segunda geração (que se estende até nossos dias) apresenta características de hipermídia, tendo como base os mesmo conceitos da primeira geração, porém, agora, a tecnologia permite muito mais interações com o usuário, com suporte para gráficos e animação. É nessa época que ocorre uma busca pela acessibilidade a um usuário não- técnico, não-especialista; fazendo surgir questões acerca da maneira pela qual os blocos informacionais passariam a ser disponibilizados para este novo público.

5. HIPERTEXTO: ALGUMAS DEFINIÇÕES E CARACTERÍSTICAS

Xavier (2005, p.171) entende hipertexto como uma forma híbrida, dinâmica e flexível de linguagem que dialoga com outras interfaces 1 semióticas, adiciona e acondiciona à sua superfície formas outras de textualidade.

1 Por interface entende-se a superfície de acesso e troca de informação. A evolução de interfaces gráficas mostra-se como um processo contínuo de melhoria do diálogo entre homens e máquinas digitais.

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Lévy (1993) define hipertexto a partir de duas perspectivas: uma técnica e outra funcional. Tecnicamente, para o autor, um hipertexto seria um conjunto de nós ligados

por conexões; esses nós poderiam ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Funcionalmente, um hipertexto seria um tipo de programa para a organização de conhecimentos ou dados, a aquisição de informações e a comunicação. Seus constituintes internos (nós e links) seriam as competências definidoras do hipertexto, pois são eles que garantem a arquitetura textual, assumindo um funcionamento dêitico extra-textual, monitorando o leitor para um exterior discursivo. (Cavalcante, 2005, p.166). Os links promovem, então, ligações entre blocos informacionais conhecidos como nós, que não necessitam, necessariamente, estabelecer uma relação entre si. Assim, essa tessitura hipertextual funcionaria como uma representação das redes de sentido que estabelecemos na leitura de um texto qualquer. Os links seriam as representações dessas redes que o autor propositalmente apresenta ao leitor, como estratégia de marcar seu próprio percurso enquanto autor, seu etilo, sua história, delineando que caminhos o leitor pode perseguir nesta sua leitura. (Ibid, p.167).

O leitor tem, então, liberdade de escolher qual “caminho” quer percorrer, não

sendo imposto, pois, uma ordem hierárquica de partes e seções a serem seguidas. Porém, como lembra Xavier (2005), essa liberdade é possível, mas não é a ideal.

Uma vez que o produtor do texto eletrônico é quem decide disponibilizar ou não links com outros hipertextos afins. E esses links hipertextuais podem apenas respaldar o ponto de vista do seu autor, embora a transparência das idéias e posições seja um traço inerente à própria concepção da rede informacional. (p173).

Essa não-linearidade, somada a quase instantaneidade da passagem de um nó a outro, pode gerar problemas de compreensão global do texto, bem como de desorientação e dispersão, pois, por exemplo, nos perdemos mais facilmente em um hipertexto do que em uma enciclopédia. A referência espacial e sensoriomotora que atua quando seguramos um volume nas mãos não mais ocorre diante da tela. Xavier (2005, p.173) defende que o uso inadequado dos links pode dificultar a leitura por quebrar, quando visitados indiscriminadamente, as isotopias que garantiriam a continuidade do fluxo semântico responsável pela coerência, tal como

ocorre em uma leitura de texto convencional. E tal dispersão pode gerar, no hiperleitor, uma indisposição e abandono da leitura, que Marcuschi (2001, p.89-90) conceitua como stress cognitivo. Ao permitir vários níveis de tratamento de um tema, o hipertexto oferece a possibilidade de múltiplos graus de profundidade simultaneamente, já que não tem seqüência nem topicidade definida, mas liga textos não necessariamente correlacionados. Diante disso, o leitor precisa de uma bagagem intelectual maior e, também, de uma maior consciência quanto ao buscado. É essa sobrecarga exigida do leitor do hipertexto que o autor define como stress cognitivo.

O hipertexto, perturba nossa noção linear de texto, pois rompe a estrutura

convencional e as expectativas a ela associadas porém, não pode ser definido como um

texto deslinearizado. A respeito disso, Xavier (2005,p.173) defende que

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Afirmar que o hipertexto é deslinearizado não equivale a dizer que ele seja um conjunto de enunciados justapostos aleatoriamente, um mosaico de frases randômicas. O hipertexto apresenta um maior distanciamento das formas tradicionais de hierarquizações por ser mais flexível na sua formatação visual, estocagem do material discursivo e, sobretudo, por colocar nas mãos do usuário um maior controle sobre a seleção das unidades de informação. Todavia, para ser inteligível, o hipertexto – como qualquer outro – precisa apresentar alguma linearidade, pois não pode subverter os níveis de organização das línguas naturais (sintaxe, semântica, pragmática) utilizada por uma dada sociedade. (p.175)

Assim, a discussão sobre a natureza do hipertexto permite pensar o próprio texto em sua materialidade, bem como essas estratégias de seu processamento ou do simulacro dele. Pois, o que os links evidenciam são as opções associativas que, na leitura de um texto qualquer, o leitor articula a partir de seus conhecimentos prévios, sua ideologia, etc. O hipertexto seria, então, uma espécie de simulação do que acontece na relação do leitor com o texto, na produção de sentido deste; sendo que no hipertexto o autor destaca os pontos de referência (links) que considera serem relevantes ao seu leitor, não refletindo de fato o percurso a ser seguido por este. Há, assim, um limite sobre o que é disponibilizado para leitura, mas não como se dará tal leitura. Todos os textos públicos acessíveis pela rede Internet fazem virtualmente parte de um mesmo imenso hipertexto em crescimento ininterrupto. Essa prática de leitura e produção de hipertextos encontra-se hoje em pleno desenvolvimento na Internet, notadamente na World Wide Web. Esses hiperdocumentos, acessíveis por uma rede informática, são poderosos instrumentos de escrita-leitura coletiva e pela interatividade que proporcionam, adequam-se, particularmente, aos usos educativos.

6. HIPERTEXTOS E A EDUCAÇÃO

A incorporação dos hipertextos nos processos educacionais é uma opção que o professor atual deve levar em conta, dada a interatividade, a facilidade no acesso à informação e a comunicação dinâmica que eles proporcionam; tornando-se, pois, uma ótima opção para a construção de diferenciais positivos nos processos educacionais. Nas palavras de Xavier (2005,p.175-176):

Num ambiente intersemiótico como o hipertexto, o ato de ler/compreender se viabiliza com muito mais totalidade e amplitude,

haja vista que, estando esses aparatos midiáticos bem organizados e devidamente inter-relacionados, o usuário, mesmo inconsciente, será beneficiado pela convergência dessas interfaces comunicacionais, já

que todas elas cooperam para fazer fluir a compreensão (

mais explícitas as idéias e mais claros os argumentos do autor pelos aparatos sígnicos, maior será o estímulo à participação e ao

engajamento do leitor no processo de apreensão da significação ( ), uma vez que o leitor poderá contar com outros meios simbólicos que não apenas o lingüístico para consignar seu intento de leitura.

) e quanto

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A possibilidade de tornar o processo educacional mais interativo – ou dinâmico

– se manifesta na relação que o usuário tem com o texto e da possibilidade, a partir

desta interação, de construir conhecimentos através da escolha do melhor caminho para

a sua aprendizagem, modificando a mensagem segundo seus conceitos de importância

(através do que considera valoroso no documento), não sendo, pois, só um leitor, mas também um autor.

Entendemos por hipertexto a navegação a partir de textos, imagens, vídeos e quaisquer outros elementos que permitam acessar novas informações de forma interativa e direta. Utilizando os hipertextos, cada aluno pode seguir por caminhos diferentes dentro de um mesmo assunto, chegando a resultados semelhantes, mas de forma individualizada, que respeite as suas particularidade e especificidades. (KALINKE, 2003, p.43)

Outro aspecto interessante na incorporação desses recursos tecnológicos à prática educativa é a possibilidade de uma navegação mais atrativa e interessante pelo assunto; pois, quando agregam imagem, som, vídeo e animações, acabam por criar um novo modelo de documento que reflete numa melhor assimilação do conteúdo por parte dos alunos. Além disso, a grande quantidade de informações que os hipertextos disponibilizam, através dos links, auxilia no enriquecimento da pesquisa, podendo contribuir para a disseminação e democratização do conhecimento. Porém, o uso desses hiperdocumentos em sala de aula, necessita da participação efetiva do professor que deve conscientizar e orientar os alunos no uso destes recursos e nas informações que estes proporcionam para não sofrerem o stress cognitivo. Defende-se aqui o uso dessa tecnologia em práticas educacionais como mais uma possibilidade, mais um recurso a ser utilizado na geração de novos tipos de aprendizagem, aprendizagem esta mais centrada no aluno e na investigação, e não como única forma de pesquisa a ser utilizada.

7. HIPERTEXTOS E FORMAS CLÁSSICAS DE PRODUÇÃO TEXTUAL

A internet apresenta uma gama inumerável de páginas cujos modelos textuais

têm uma variação bastante grande. No universo formado por eles, encontram-se tanto hipertextos bastante tradicionais, caracterizados pelo uso dos modos clássicos de comunicação, amparados, principalmente, em textos verbais; como outros que fazem uso discursivo de diversos recursos expressivos. Um desses recursos diferenciadores apontado por Pereira Júnior (2007) é a

animação. Muitos hipertextos, além das características já apontadas, apresentam figuras

e menus animados e, esse recurso, é impossível de ser exemplificado em papel. Marcuschi (2001,p.91-93) refletindo sobre o hipertexto, analisa suas especificidades, relacionando-o às formas clássicas de produção textual; enumerando as características que determinam a natureza do primeiro:

a) O hipertexto é um texto não linear: apresenta uma flexibilidade desenvolvida na forma de ligações permitidas/sugeridas entre nós que constituem redes que permitem

a elaboração de vias navegáveis; a não-linearidade é tida como a característica centro do

hipertexto;

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b) O hipertexto é um texto volátil: não tem a mesma estabilidade dos textos de livros, por exemplo, e todas as escolhas são tão passageiras quanto às conexões estabelecidas por seus leitores, sendo um fenômeno essencialmente virtual;

c) O hipertexto é um texto topográfico: não é hierárquico nem tópico, por isso

ele é topográfico; um espaço de escritura e leitura que não tem limites definidos para se desenvolver; esta é uma característica inovadora já que desestabiliza os frames ou

“enquadres” de que dispomos para identificar limites textuais; d) O hipertexto é um texto fragmentário: consiste na constante ligação de

porções em geral breves com sempre possíveis retornos ou fugas; carece de um centro regulador imanente, já que o autor não tem mais controle do tópico e do leitor;

e) O hipertexto é um texto de acessibilidade ilimitada: acessa todo tipo de fonte,

sejam elas dicionários, enciclopédias, museus, obras científicas, literárias,

arquitetônicas, etc. e, em princípio, não experimenta limites quanto às ligações que permite estabelecer;

f) O hipertexto é um texto multisemiótico: caracteriza-se pela possibilidade de

interconectar simultaneamente a linguagem verbal com a não-verbal (musical,

cinematográfica, visual e gestual) de forma integrativa, impossível no caso do livro impresso;

g) O hipertexto é um texto interativo: procede pela interconexão interativa que,

por um lado, é propiciada pela multisemiose e pela acessibilidade ilimitada e, por outro

lado, pela contínua relação de um leitor-navegador com múltiplos autores em quase

sobreposição em tempo real, chegando a simular uma interação verbal face-a-face. Assim, as propriedades do hipertexto o tornam um feito essencialmente virtual e descentrado, que não se determina pelo desmembramento de um tópico, mas sim, pelo deslocamento indefinido por tópicos. Contudo, mesmo passando para o leitor o controle cognitivo e informacional do hipertexto, ele não se constitui como um agregado aleatório de enunciados ou fragmentos textuais. 8. CONCLUSÃO

A partir do exposto, percebe-se que o hipertexto, hoje tão difundido em nosso

meio, é uma escrita eletrônica não-sequêncial e não-linear, que permite ao leitor o acesso a um número praticamente ilimitado de outros textos a partir de escolhas locais e sucessivas, em tempo real, permitindo a este a definição interativa do fluxo de sua leitura a partir de assuntos tratados no texto sem se prender a uma seqüência fixa ou a tópicos estabelecidos por um autor.

A não-linearidade possibilitada pelo hipertexto somada a quase instantaneidade

da passagem de um nó a outro, pode gerar problemas de compreensão global do texto, bem como de desorientação e dispersão, exigindo muito mais conhecimentos prévios e maior consciência quanto ao buscado, para que não haja uma perda do assunto, já que é um permanente convite a escolhas muitas vezes inconseqüentes. Esses hiperdocumentos, acessíveis por uma rede informática, são poderosos instrumentos de escrita-leitura coletiva e pela interatividade que proporcionam, adequam-se, particularmente, aos usos educativos graças à sua dimensão reticular ou não linear, favorecendo uma atitude exploratória, ou mesmo lúdica, face ao material a ser assimilado. É, portanto, um instrumento bem adaptado a uma pedagogia ativa. Assim, por ser tão popular, torna-se necessário que o professor atual conheça o funcionamento do hipertexto, bem como suas peculiaridades, para que possa trabalhar com seus alunos, usuários constantes dessa forma textual, as modificações conceituais que ele provoca: questão do tempo, espaço, interatividade, a função dos links, a relação

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entre linguagem e outras semioses na formação desses hiperdocumentos, a própria construção destes, etc., para que seus alunos possam construir um domínio que lhes permitam usufruir dessa nova modalidade textual sem se perderem na liberdade que ela proporciona, possibilitando, assim, uma maior integração entre mídia, informação e aprendizagem.

REFERÊNCIAS

MARCUSCHI, Luiz Antônio. O hipertexto como novo espaço de escrita em sala de aula. In: Linguagem e Ensino, vol. 4, nº 1, 2001, p. 79-111.

CAVALCANTE, Marianne Carvalho Bezerra. Mapeamento e produção de sentido: os links no hipertexto. In: MARCUSCHI & XAVIER (orgs). Hipertextos e Gêneros Digitais. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005, p.163-169.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A era da informação: economia, sociedade

e cultura. Trad. Roneide Venâncio Majer, 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

A galáxia da Internet. Reflexões sobre a Internet, os negócios e

a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

KALINKE, Marco Aurélio. Internet na Educação: como, quando, onde e por quê. Curitiba: Editora Expoente, 2003.

LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea.Porto Alegre: Sulina, 2002.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

PEREIRA JÚNIOR, Antônio Davis. A constituição multimodal de textos digitais: a superposição e a integração de modos diversos de linguagem na construção hipertextual. In: http://ead1.unicamp.br/e-lang/publicacoes/down/09/09.pdf. Acessado em 08/01/07 às 14:46hs.

SANTOS, Gildásio Mendes dos. A realidade do virtual. Campo Grande: UCDB, 2001.

XAVIER, Antônio Carlos. Leitura, texto e hipertexto. In: MARCUSCHI &

Hipertextos e Gêneros Digitais. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005,

p.170-180.

(orgs).

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