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MANIFESTO PROTESTANTE ANTI-

FUNDAMENTALISTA
LUTA PELO PROGRESSO DA REFORMA PROTESTANTE NO
BRASIL

Ricardo Quadros Gouvêa

2002
Introdução

Estamos em um momento crítico e singular na história do protestantismo


brasileiro. A ameaça neo-puritana e fundamentalista mostra-se cada vez mais
real e já é tempo de todos aqueles que abraçam de coração o genuíno espírito
da reforma protestante se manifestem e se organizem, antes que seja tarde
demais e que as forças sectaristas levem as denominações históricas para os
radicalismos puritânicos, fundamentalistas e carismáticos.
Este breve ensaio visa dar início a esta atividade que é hoje
imprescindível se quisermos ainda sonhar com o progresso do protestantismo e
da reforma no Brasil.
Trata-se de um manifesto que propõe um redirecionamento programático
para a igreja e a teologia evangélicas do século 21, um redirecionamento que
nos sirva de orientação, de mapa intelectual para as igrejas históricas.
Minha intenção é apresentar dez pontos programáticos, na forma de um
verdadeiro manifesto com vistas à restruturação da reflexão teológica no
Brasil.
Entretanto, antes de entrarmos nos dez pontos programáticos,
começaremos este estudo respondendo a quatro perguntas introdutórias
fundamentais, muito comuns hoje nos círculos evangélicos de reflexão eclesial
e teológica. As quatro perguntas são: a) o que é ser cristão hoje; b) o que é
ser igreja cristã hoje; c) o que é ser um pastor cristão hoje; e d) o que é fazer
teologia cristã hoje.
Deixo claro desde já que não tenho a pretensão de esgotar estes
assuntos. Como poderia? Minha intenção é fomentar o debate, e tornar óbvia
a necessidade de buscarmos respostas para estas perguntas que, por estarem
carecendo de respostas satisfatórias e por serem fundamentais, fazem-nos
contemplar a necessidade deste redimensionamento do fazer teológico a que
nos propomos. A meditação nestes temas, portanto, proporcionará a
atmosfera adequada para a reflexão programática que segue.
Após oferecer respostas provisórias a estas quatro perguntas,
apresentaremos e discutiremos os dez pontos programáticos essenciais que
consideramos adequados para o nosso momento histórico tanto na vida da
igreja quanto na teologia.
Passemos agora, então, às perguntas sugeridas:
A. O que significa ser cristão hoje?

Muitos se dizem cristãos, mas nem todos de fato o são. Muitos se dizem
cristãos, mas nem todos vivem de forma consistente com esta declaração.
Isto não é um julgamento de indivíduos em particular, mas uma verdade
evangélica. O próprio Senhor Jesus alertou-nos para este fato, ao dizer que
muitos o chamariam de “Senhor”, sem que houvesse autenticidade nesta
confissão, e ao dizer que haveria falsos profetas e lobos cobertos com peles
de ovelhas no meio do rebanho.
Assumimos desde já, portanto, que nem todos os que se dizem cristãos,
de fato, o são. Por inferência, assumimos que nem todos que se dizem
protestantes, de fato, o são; que nem todos os que se dizem evangélicos, de
fato, o são; e que nem todos os que se dizem reformados, de fato, o são.
Muito pelo contrário, o mundo protestante brasileiro parece, em grande
parte, ter-se esquecido o que significa ser protestante. O espírito dos
reformadores não se faz mais presente no coração da maioria dos evangélicos
que, consciente ou inconscientemente, sucumbem a um lento e progressivo
processo de catolicização, re-catolicização ou medievalização. A cosmovisão
que se desenvolveu a partir da reforma vê-se hoje sob o risco de ser
substituída por novas cosmovisões catolicizantes, judaizantes e carismáticas.
Há um engano sendo vivido e proclamado pelas igrejas evangélicas. Eis o
engano: pensa-se que basta ser evangélico “de carteirinha”, isto é,
freqüentar uma igreja evangélica, usar o jargão evangélico (o chamado
“evangeliquês”) no linguajar diário, abraçar uma ética pessoal em
consonância com os costumes evangélicos, e assim por diante, para ser um
verdadeiro cristão, isto é, para viver a comunhão com Deus por meio de
Cristo. Com esse engano, estamos re-inventando no Brasil a figura do cristão
evangélico nominal. É por isso que temos visto celebridades facilmente se
declararem evangélicas. Muitos hoje estão emulando a graça barata de que
Dietrich Bonhoeffer nos fala no seu Nachfolge, seu clássico sobre o discipulado
cristão.
O que define o cristão não é o fato de ele se dizer cristão ou evangélico,
nem é o fato de freqüentar uma igreja evangélica, nem mesmo o fato de ler a
Bíblia ou fazer suas orações diárias. O que determina que alguém seja ou não
seja um cristão é sua vida, seu modus vivendi, que deve estar em consonância
com a Oração do Senhor, que diz: “Venha o Teu Reino; seja feita a Tua
vontade, ó Pai Celeste, assim na terra como é no céu”.
Não há salvação sem discipulado, e discipulado significa ser um aluno de
Jesus Cristo e seguir os seus passos. Ser cristão hoje, portanto, deveria ser
entendido como a disposição de seguir os passos de Jesus, de ser um discípulo
de Cristo e viver a vida de Jesus Cristo hoje, e então poder dizer, como disse
Paulo, “já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim”, ainda que
tenhamos, no fim do dia, de confessar nossa incapacidade de tornar real nossa
intenção manifesta em nossa oração matinal, de que a beleza e o aroma de
Cristo sejam encontrados em cada um de nós.
Não estamos com isso querendo sugerir uma forma de neonomismo
legalista. Muito pelo contrário, percebemos que foram exatamente os
fundamentalistas e puritanos legalistas que nos trouxeram até esta crise
atual, pois, pelo estabelecimento de regras comportamentais pueris, levaram-
nos a “coar o mosquito e engolir o camelo”.
As grandes questões éticas, conectadas invariavelmente aos
relacionamentos sociais, foram minimizadas sob o peso de regras de conduta
ascéticas que nos levaram a uma ética pessoal individualista e pragmática e,
portanto, anti-ética, isto é, uma verdadeira contradição em termos, uma
contradição típica dos extremismos.
A resposta, portanto, não está nem no antinomianismo da graça barata
nem no neonomismo do legalismo comportamentalista, mas em uma ética
fundamentada em princípios bíblicos, que priorize os relacionamentos e
dignifique cada ser humano, dando-lhe a competência e a responsabilidade de
escolher suas atitudes e definir suas práticas a partir de parâmetros
normativos divinamente outorgados e não a partir de regras heteronômicas.
Em suma, o que é ser cristão hoje? É viver a fé cristã hoje! E o que é
viver a fé cristã hoje? Seria preferir uma certa forma de liturgia no momento
em que a igreja local se reúne para o exercício de adoração? Seria perpetrar
certos rituais tradicionais e desprezar outros? Seria preferir uma certa
interpretação bíblica a outra, nas disputas escolásticas a respeito de versos
difíceis da Escritura Sagrada? Seria achar-se dono da verdade teológica,
proprietário do conhecimento do ser de Deus, douto nas velhas doutrinas e
capaz de compreender os meandros dos paradoxos dogmáticos? Seria
experimentar certas iluminações místicas e passar por experiências religiosas
inefáveis que infundem conhecimentos secretos que nos fazem mais
espirituais que outros? Não creio em nenhuma destas possíveis respostas.
Viver a fé cristã hoje é viver o discipulado cristão, isto é, é ser um
seguidor de Cristo hoje na terra, é ser corpo de Cristo no mundo, reino de
sacerdotes, luz do mundo e sal da terra. Ser cristão é dizer não à mera
religiosidade, e sim à vida espiritual relacional, abraçando a responsabilidade
pela reforma palingenética da criação de Deus, no combate ao pecado da
objetificação de Deus e do próximo, na apropriação gloriosa da salvação por
meio de Cristo em nós, no poder do Espírito Santo de Deus, que era, que é, e
que será eternamente, a Ele seja dada toda a glória pelos Séculos dos Séculos.
B. O que é ser uma igreja cristã hoje?

Há apenas uma igreja, o Corpo de Cristo, una, santa, universal, fundada


no ensino apostólico. Eu olho, entretanto, ao meu redor e vejo uma miríade
de igrejas e denominações. Precisamos, é claro, buscar a unidade do genuíno
evangelho cristão por trás desta diversidade institucional. Todas estas
denominações e congregações se dizem cristãs, mas em muitas delas é difícil
enxergar, por trás de toda uma larga crosta de badulaques e maquiagem, o
genuíno evangelho da graça transformadora, aquilo que deveria ser o coração
pulsante de qualquer igreja que se chame cristã.
Eu uso a palavra “evangélica” com muito cuidado ultimamente, pois o
termo já não é mais sequer um referência às boas novas da salvação pela
graça mediante a fé, mas sim uma indicação social de que se trata, em geral,
de uma pessoa ou instituição cristã não-católico-romana.
Grande parte destas igrejas evangélicas são, na verdade, a impensável
quimera: religiões cristãs-pagãs. Elas estão de tal maneira influenciadas pelo
neopaganismo de nossos tempos que nelas efetuou-se uma espécie de síntese
demoníaca entre o ritualismo e o pietismo cristãos com uma cosmovisão
nitidamente animista.
Eu estou falando especialmente das igrejas chamadas neopentecostais,
caracterizadas pela graça barata de uma religiosidade sem princípios éticos,
pelo animismo de um mundo dominado por forças espirituais, e pela teologia
da prosperidade, as infindáveis barganhas com Deus que fariam os vendedores
de indulgências dos tempos de Lutero corarem de vergonha.
Os desvios do pentecostalismo clássico (com a licença do oxímoro), são
de outra natureza. Nós aqui destacaremos apenas os dois mais importantes.
Primeiro, o legalismo pentecostal em que o evangelho da graça soçobra
num emaranhado de regras de conduta. O legalismo que tem levado os
membros das igrejas pentecostais aos manicômios e os pastores pentecostais
ao suicídio. O legalismo, esse cartesianismo da piedade, que pensa poder
construir um povo genuinamente cristão por meio de imposições e controle
dos costumes.
O legalismo puritano das igrejas históricas também tem sido, entretanto,
um motivo de vergonha para toda a comunidade cristã, pois é uma afronta ao
evangelho daquele que comia com os ladrões e as prostitutas, daquele que
tocava e cuidava dos leprosos, daquele que curava aos sábados, e que afirmou
ser o sábado feito para o homem, e não o homem para o sábado.
E em segundo lugar, o sensorialismo. Todos sabemos que há muitos
pentecostais que desviaram-se da genuína intimidade com Deus que se dá por
meio da união mística com Cristo, da percepção da transcendência e da
imanência divinas e do engajamento na missão de Deus no mundo, e partiram
para a busca louca de experiências sensórias que lhes dêem garantias da
presença e da ação de Deus.
O sensorialismo, essa mula-sem-cabeça da espiritualidade cristã
contemporânea, tem como graves conseqüências o abrir as portas para o mais
descarado charlatanismo, o levar muitas comunidades ao caos das
manifestações sobrenaturais, e finalmente à ridicularização da ação
miraculosa de Deus entre os homens, transformando tantas igrejas em tendas
de milagres similares às dos cultos africanos, fazendo um pasquim e uma
caricatura dos grandes milagres de Deus na história, tornando-os tão comuns e
naturais como um show de televisão que se repete a cada semana, tornando
os milagres de Jesus comuns e naturais, vulgares como um comentário
passageiro numa conversa fortuita. Este foi um dos resultados nefastos de
cem anos de pentecostalismo clássico.
Mas o que dizer das igrejas protestantes históricas? Não são elas
constantemente acusadas, com a maior justiça, de serem frias e sem vida?
Não são muitas delas justamente acusadas de terem se tornado clubes de
encontros e sociabilização, onde converso com os amigos, onde levo meus
filhos para que encontrem seus futuros cônjuges, onde eu me descarrego da
culpa de uma vida sem Deus? Onde está a energia protestante que engajava os
crentes no projeto de transformação do mundo? Onde está a influência
protestante sobre a sociedade e o mundo em que vivemos? Por que não vemos
as igrejas protestantes moldando a cultura, a moral, as artes e a vida
intelectual da sociedade brasileira? Será que esquecemos o que é ser igreja?
Será que deixamos para trás os nossos compromissos e os mandatos divinos,
como o mandato cultural e o mandato social? Será que nos ensimesmamos ao
ponto de somente nos preocuparmos com nosso próprio crescimento espiritual
e o ganhar novas almas para a denominação a que pertencemos? Será que nos
tornamos tão estéreis na nossa religiosidade que os desafios que encontramos
diante de nós são sempre os desafios de fazer frente a outras formas de
religiosidade em vez dos desafios decorrentes da busca de uma expressão
cada vez mais genuína daquilo que desde a reforma do século 16
consideramos a essência do pensamento e da prática cristãs?
Qual seria, então, a marca indelével de uma igreja cristã hoje? Creio que
a única resposta apropriada é: o amor, em todas as suas dimensões e com
todas as suas conseqüências. As igrejas cristãs são comunidades onde se
pratica o amor, onde o amor reina soberano. O conceito de amor, entretanto,
tornou-se tão etéreo, tão abstrato, tão nebuloso, que hoje a palavra já não
significa mais nada. É preciso explicar o que se quer dizer por amor, pois sem
dúvida foi amor que Jesus Cristo nos disse ser o resumo da lei no capítulo
vinte-e-dois do Evangelho Segundo Mateus: “Amarás o Senhor teu Deus de
todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é
o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este é: Amarás o
teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei
e os profetas”. E Paulo afirma, no décimo-terceiro capítulo de sua Carta aos
Romanos, ser o amor o cumprimento da lei: “quem ama o próximo tem
cumprido a lei. Pois isto: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não
cobicarás, e se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o
próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor”.
Viver em amor para com Deus e para com o outro é viver em comunhão
com Deus e realizar seu propósito para nossas vidas neste mundo. Mas é
preciso que definamos melhor o que entendemos por amor: amor significa
solidariedade, dignificação, compaixão e sacrifício. A comunidade que se diz
cristã só é de fato cristã se viver em amor, isto é, se praticar a solidariedade
para com Deus e sua missão, se praticar a dignificação de Deus e dos seres
humanos, se fizer da compaixão uma prática permanente e ininterrupta.
C. O que é ser um pastor hoje?

O pastorado é uma vocação sagrada. Num certo sentido, todos somos


pastores uns dos outros, responsáveis uns pelos outros. Todavia, o pastorado,
stricto sensu, isto é, o pastorado de igrejas locais e comunidades cristãs, é
uma vocação muito específica para alguns homens e mulheres que Deus
chama para esse trabalho.
Portanto, assumimos como pressuposto bíblico que Deus convoca alguns
seres humanos para pastorearem comunidades cristãs. Entretanto, quando eu
olho ao meu redor, vejo pastores que são aproveitadores gananciosos,
abusadores neuróticos, charlatões fracassados, ou psicóticos carismáticos.
Há pastores sérios, no entanto, que estão no momento, infelizmente,
incapazes de transmitir um evangelho vivo às suas ovelhas, e estas estão mal
nutridas. Há também pastores que são verdadeiros servos de Deus, fazendo
bem o seu trabalho, graças a Deus. Estão desanimados de ver o seu trabalho
santo de pastoreio transformado em um trabalho de politicagem tribal, no
esforço contínuo por manter o grupo unificado, satisfazendo vaidades
pessoais, administrando melindres dos grupelhos da comunidade.
Tenho visto pastores e líderes evangélicos cada vez mais preocupados
com os números, com a freqüência nos cultos e o saldo em caixa, com o
número de novas igrejas plantadas. O crescimento numérico passa a ser um
fim em si mesmo, e toda a conversão passa a ser vista, sem que isso seja
jamais explicitamente comunicado, muito mais uma bênção para a igreja que
para o indivíduo convertido. Sucumbe-se assim ao espírito do tempo, e ao
liberalismo, a igreja torna-se uma empresa, ainda que sem fins lucrativos, ou
ao menos aparentemente sem fins lucrativos, mas mesmo assim uma empresa
que visa a arrecadação de fundos e a venda e distribuição de um produto de
consumo, numa sociedade de mercado onde a publicidade é a alma do
negócio, e a ética se transforma em maquiavelismo sob o efeito das práticas
inescrupulosas daqueles que seguem as leis do mercado.
O pastor cristão não deveria jamais, em hipótese alguma, colocar outras
coisas quaisquer na frente das pessoas, isto é, como mais importantes do que
as pessoas com as quais lida, as ovelhas que foram colocadas sob seu cuidado.
O líder não deve colocar nenhuma forma de aumento numérico, seja de
dinheiro, seja de pessoas, seja de congregações, à frente de seu trabalho de
discipulador e consolador das ovelhas.
Muito além disto, no entanto, vão as implicações de um pastorado
biblicamente orientado para o bem-estar das ovelhas, em que todo sacrifício
em prol das ovelhas é desejado e esperado, e em que nada, absolutamente
nada é colocado à frente do cuidado com as mesmas. O pastor não pode
pensar, por exemplo, que a doutrina é mais importante que o amor fraternal,
ou que a liturgia é mais importante que a comunhão eclesial, ou que o ensino
da Bíblia é mais importante que a mente livre dos crentes, pois a Bíblia foi
feita para os crentes e não os crentes para a Bíblia.
A Palavra de Deus escrita, texto fundante e autoritativo para todos os
cristãos, deve servir para a iluminação das mentes e não para o obscurantismo
dos doutos. A doutrina deve ser um farol, um estandarte, um símbolo de fé, e
não um labirinto de logomaquias e chiboletes gnósticos e sectaristas.
A liturgia, por fim, deve ser um meio de transporte, não um cárcere. E
um cárcere decorado no estilo clássico tradicional ou no estilo informal
contemporâneo, continua sendo um cárcere, em vez de um veículo de
libertação.
O que deveria ser a vida e o trabalho do pastor hoje? Deveria ser, antes
de tudo, uma vida de discipulado cristão que servisse de exemplo, de modelo,
para o povo. Em segundo lugar, deveria ser uma vida de médico de almas,
dedicado ao cuidado com a vida espiritual das ovelhas, fazendo de sua igreja
uma comunidade terapêutica, como se costuma dizer, mas que não se
costuma encontrar em parte alguma. Antes, o que encontramos são igrejas e
mais igrejas trabalhando como verdadeiras fábricas de neuróticos moralistas,
de gente obcecada com a religião, de paranóicos animistas perseguidos por
demônios e de esquizofrênicos divididos entre o mundo de Deus e o mundo
das coisas terrenas. Em terceiro lugar, o pastor deveria ser um comandante
que dirige as ações cristãs da sua comunidade para que ela possa ser uma
influência na sociedade em que está inserida.
Somente a igreja composta de cristãos comprometidos com o mandato
cultural e a vida cotidiana na terra, no mundo criado por Deus, pode viver o
padrão eclesial que é adequado para os nossos dias, não de apocalipticismo e
pessimismo, mas de prática reformacional e esperança na transformação do
mundo e das instituições sociais e culturais pela igreja, Corpo de Cristo, no
poder do Espírito Santo de Deus.
D. O que é fazer teologia hoje?

Fazer teologia hoje certamente não é simplesmente repetir velhas


formulações, nem muito menos continuar a fazer a caduca defesa da fé a
partir de uma cosmovisão setecentista. Assim como certamente não é
sucumbir às pressões mundanas de conformidade com o século, nem também
privilegiar modismos novidadeiros. O papel do teólogo é constantemente
repensar a tradição. Em outras palavras, nem repetir, nem rejeitar, mas
traduzir e atualizar a tradição para que a vida da tradição teológica seja
preservada e sua aplicação seja sempre e cada vez mais eficiente.
O teólogo precisa estar, portanto, solidamente calcado na tradição,
mergulhado nas fontes primárias das Escrituras Sagradas e dos grandes vultos
da história das idéias cristãs. Não para repetir meramente, pois isto seria
tradicionalismo estéril, nem para rejeitar ou rever, pois isto seria
inovacionismo invencionista e caótico, mas antes para sustentar a tradição,
mostrar o seu vigor e seu valor, poli-la para que apareça ante nossos olhares
como uma opção não só viável mas também desejável. Este é o fascinante
trabalho do teólogo.
Quais são, portanto, os grandes desafios da teologia protestante, e
particularmente daquela que se diz reformada, ante as novidades teológicas
modernas? É enfrentar com os pés firmes na tradição e os olhos voltados para
o mundo ao nosso redor, os modernismos teológicos nas suas formas mais
extremadas. São três, em minha opinião, os principais extremismos
modernistas que nos cabe rejeitar: a) O Carismatismo; b) O Liberalismo; c) O
Fundamentalismo.
Cada uma destas três posições extremistas devem ser rejeitadas, não só
por serem extremistas, isto é, por não serem equilibradas, sóbrias,
criteriosas, mas sim extremadas e instáveis, e isto porque surgiram já de uma
perspectiva de confrontação e portanto de exaltação emotiva, mas também e
principalmente por serem todas as três posições novidadeiras. Estes três tipos
de teologia surgiram recentemente. Falta a cada uma das três o ancoramento
na tradição de dois mil anos, a tradição do pensamento cristão e da prática
cristã, tradição esta que, se não abraço, não sou verdadeiramente parte dela,
e deixo de ser um cristão.
Isso não quer dizer, é claro, que tudo que vem destes movimentos é
ruim. Não é verdade, e nem poderia ser, pois estes movimentos surgem como
radicalizações de certos aspectos da tradição, e apontam para esquecimentos
e lacunas na prática da constante recuperação da tradição. Estes aspectos da
tradição que estão no origem destes movimentos são valiosos elementos da
prática e do pensamento cristão. O problema está somente na proposta do
extremismo, na ânsia pela radicalização.
Os extremistas, quer carismáticos, quer liberais, quer fundamentalistas,
compartilham algumas características básicas de atitude e comportamento
que queremos utilizar na elaboração desta proposta de trabalho para a igreja
cristã, ortodoxa, protestante e reformada no século 21. Quais seriam estas
características comuns? Elas são: (i) a intolerância, (ii) o sectarismo, (iii) o
obscurantismo, (iv) o belicismo, (v) o dogmatismo, (vi) a presunção
epistemológica, (vii) o superficialismo bíblico ou biblicismo, (viii) o
exclusivismo e o inclusivismo, (ix) o guetoísmo eclesiástico, e por fim (x) o
legalismo e o pragmatismo éticos. Nestes pontos programáticos estaremos
sugerindo opções alternativas opostas a estas tendências extremistas.
1. Tolerância em vez de Intolerância

A tolerância é um dos frutos do amor e, na verdade, nenhum amor é


perfeito que não contenha também tolerância para com aquele que é
diferente, que age diferentemente, que pensa diferentemente. Quando
amamos verdadeiramente, somos tolerantes, aprendemos a nos colocar no
lugar do outro, na situação do outro, não apenas na condição física e social do
outro, mas também na sua condição mental, no seu nível educacional, na sua
realidade existencial, e é aí, em geral, que costuma nascer em nós a
verdadeira tolerância.
Infelizmente, nem sempre tem sido assim. A intolerância tem sido uma
marca constante e uma das principais causas dos pecados dos cristãos e da
igreja através da história. Felizmente, em contrapartida, a história também
está indelevelmente marcada pelo testemunho de cristãos e de comunidades
cristãs que, em praticando atitudes de tolerância, demonstraram profundo
amor e conquistaram o coração das multidões por esta dignificação do outro,
do diferente, do antagônico.
Todos nós sabemos que a história do cristianismo é salpicada de
momentos da mais bárbara ignorância intolerante, como, por exemplo, as
cruzadas medievais, as guerras religiosas da era das reformas religiosas na
Europa, a condenação das bruxas em Salém, nos Estados Unidos, e mais
recentemente no fundamentalismo norte-americano, ligado ao macarthismo
anti-comunista, que chegou ao Brasil e às igrejas batistas e outros grupos
evangélicos, durante os anos sessenta, e que permanece ativo até hoje em
grupos intelectualmente recalcitrantes.
Hoje ainda encontramos em nossas igrejas, devido aos grupos que se
formaram, extremismos fundamentalistas. Em algumas denominações, e em
certas regiões do país, estes grupos ainda controlam a educação teológica.
Nestes grupos, bem como em outros focos de extremismo tanto de cunho
liberal como de cunho carismático, encontramos uma crescente intolerância.
Esta intolerância é de parte a parte, de uns para com os outros. Pior para os
que gostariam de ocupar uma posição equilibrada e optar pela via média.
Estes são perseguidos por todos os grupos.
O problema não é o de existirem posições divergentes. A divergência de
opiniões é muito salutar. O problema é justamente o contrário: é haver
intolerância para com aqueles que pensam diferentemente de um indivíduo ou
grupo específico, ou melhor, diferentemente daqueles que são intolerantes.
Isso me faz lembrar do famoso lema da tolerância cristã: em tudo que é
essencial, a unidade; em tudo que não é essencial, a pluralidade, e em todos
reine o amor. Tolerância significa perceber que aquilo que nos une é maior
que aquilo que nos divide. Os grupos extremistas, no entanto, recrudescem-se
em suas trincheiras diante de propostas como esta, e passam a considerar
todas, ou quase todas as suas posturas teóricas ou práticas como essenciais. E
se cada um se mantém agachado em sua trincheira, o diálogo se torna
impossível.
E isso nos leva a um segundo problema ou dilema: não devemos somente
optar pela tolerância em vez da intolerância, mas também pelo diálogo.
Sigamos, portanto, ao próximo assunto, relacionado diretamente a este, que é
a pouca disposição por parte dos extremistas intolerantes ao diálogo
construtivo.
2. Diálogo em vez de Sectarismo

Há quem faça uma distinção, ao meu ver falaciosa, entre intolerância e


intransigência. Na minha opinião, o intransigente é ad hoc et propter hoc
intolerante. Dizer que o intransigente pode ser, de alguma forma misteriosa,
tolerante, é como inventar um tipo falso, inteiramente abstrato de
tolerância, uma tolerância para inglês ver, uma tolerância de faz-de-conta.
Tolerar é transigir, ou estar sempre disposto a transigir em prol da unidade, do
respeito, da dignificação do outro, do amor.
Tolerância implica, portanto, em diálogo. E diálogo, quando é diálogo
honesto, implica no fim da intransigência, na disposição para debater os
assuntos com abertura, com franqueza e admitindo que o outro pode estar
certo. Diálogo significa aceitar que o outro pode ter mais razão, e permitir-se
convencer-se pelo outro, caso isso fique demonstrado no final do diálogo.
Todo ser humano tem o direito de não dialogar, de permanecer
monologando no isolamento das nossas convicções indestrutíveis. No entanto,
se nos indispusermos para o diálogo, cairemos inevitavelmente no sectarismo.
Estamos hoje assistindo a um crescente movimento de sectarização no mundo
chamado evangélico. O protestantismo tornou-se uma fábrica de “seitas”. O
risco maior ainda está adiante de nós, eu imagino, que é nós mesmos, os
chamados “protestantes históricos”, nos sectarizarmos, pois há forças
sectaristas ativas nas denominações históricas.
Nós nos sectarizamos quando nos desligamos do mundo que nos cerca,
quando nos desconectamos de outros grupos cristãos, e ficamos com cara de
seita. A sectarização acontece quando nos indispomos ao diálogo com quem
pensa e age diferentemente, com outras denominações cristãs. A sectarização
torna-se um fato concreto naquele momento em que começamos a achar que
possuímos a única expressão correta da doutrina cristã, quando confundimos o
Reino de Deus com a nossa própria denominação, como tenho visto em alguns
grupos dentro das igrejas protestantes históricas e igrejas evangélicas em
geral.
O remédio contra o sectarismo é o diálogo franco e aberto. É por isso
mesmo que os líderes das seitas não gostam que seus seguidores conversem
com parentes e amigos, não gostam que seus adeptos leiam livros que não
exponham o pensamento esposado pela própria seita. É por isso que
percebemos nas seitas uma preferência, e às vezes uma exigência, que os
seus membros não tenham contato com membros de outras seitas ou
denominações cristãs. Porque, ao terem esse contato, seus membros vão
abrir-se ao diálogo, e o diálogo é o grande adversário do sectarismo, o diálogo
abre a mente do indivíduo, e funciona como um laxativo, desconstipando a
mente que sofreu lavagem cerebral.
Entrei em contato, nos Estados Unidos, com pessoas especializadas em
desprogramar a mente de vítimas de lavagem cerebral. Nestas conversas fui
informado que o principal processo de desprogramação é precisamente o
diálogo. O desprogramador conversa por horas, e repetidamente, com o
indivíduo que sofreu a lavagem até que encontre os termos linguísticos que
serviram de chave para a lavagem cerebral, e que permitirão, estes mesmos
termos, a conseqüente desprogramação.
O sectarismo leva à prática da lavagem cerebral. Ela é feita consciente
ou inconscientemente pelos líderes das seitas ou seus acessores. Eu tenho
visto práticas explícitas de lavagem cerebral sendo empregadas em escolas de
teologia ditas evangélicas e reformadas. Algumas destas práticas sutis de
condicionamento mental, que verifiquei sendo empregadas em seminários,
são, por exemplo:
(i) Repetição Acompanhada de Expressões Violentas. Uma das mais
comuns formas de condicionamento que se verifica em seminários
teológicos é a repetição de idéias acompanhadas de expressões
violentas, do tipo “engula isso!”, ou abuso verbal, do tipo “só um
imbecil não entende isso!”, ou ainda comunicação não-verbal por
meio de expressões faciais e expressão corporal, dando a
entender que o professor ou colega está disposto a partir para a
violência caso o aluno ou colega não aceite o que ele está
dizendo.
(ii) Uso Contínuo de Palavras Específicas de Identificação. Alguns
termos são empregados com freqüência, termos estes que, em
geral, não possuem um real significado semântico, a não ser o de
identificar o indivíduo como parte daquele grupo. Todas as vezes
que uma idéia qualificada como indesejável aparece nas
discussões ou nas aulas, o professor ou algum dos colegas condena
a idéia e apresenta a opinião majoritária utilizando o termo-chave
identificatório, com expressões do tipo “mas quem é X não pensa
assim” ou “essa é a convicção de todo aluno que é X”. Com isso, o
questionador sente-se acuado, entimidado, e ameaçado de ser
excluído da identificação com o grupo, o que o leva a retrair-se e
aceitar o condicionamento, pois toda lavagem cerebral apela para
as emoções humanas e para o desejo de fazer parte de uma
comunidade coesa.
(iii) Sobrecarga de Leituras. Este método consiste em pedir aos
alunos que executem tantas leituras a ponto de tornar tal façanha
uma impossibilidade. Em geral, textos importantes da história
intelectual do ocidente são escolhidos, para causar a impressão de
liberdade de pensamento e diversidade de idéias. Com isto, na
verdade, desestimula-se o aluno a ler, e ainda mais, a ler com
atenção os textos acadêmicos. O aluno passa a realizar leituras
rápidas e superficiais, e acostuma-se a apresentar caricaturas
destas leituras como resultado da apreensão do sentido do texto e
do pensamento do autor em questão.
(iv) Designação de Professor de Leituras. Um único professor fica
encarregado de pedir as leituras aos alunos, em especial, as
leituras de livros que contém idéias supostamente contrárias às
idéias defendidas pelo grupo de extremistas que controla a escola
em questão.
(v) Técnicas de Humilhação e Repressão. Todas as vezes que um
determinado aluno parece querer insistir em manter-se fora do
condicionamento, e em manter-se livre para pensar por si mesmo,
ele torna-se alvo de motejos e chacotas por parte dos colegas e
dos professores, que estimulam esta prática. São também
perseguidos pelos professores, rotulados em classe com
expressões caricaturais, e ameaçados de reprovação caso não
demonstrem praticamente que aderiram ao pensamento da
maioria.
(vi) Armações com Vistas à Exclusão. Caso um elemento da
comunidade, seja ele aluno ou professor, passa a desempenhar um
papel crítico e passa a levantar uma voz discordante, procurando
alertar os seus colegas ou seus alunos para as práticas de
condicionamento da escola, é comum vermos a organização e
aplicação sobre este indivíduo de armações de cunho meramente
intelectual ou até mesmo de cunho moral, isto é, acusações de
imoralidades ou de heresias que, em geral, são fundamentadas em
meias-verdades, ameaças, testemunhas preparadas e até
falsificação e desaparecimento de documentos. Estas armações
visam a exclusão do elemento do seio da comunidade, e é fruto de
um acordo tácito entre professores, funcionários e alunos. Os
membros da comunidade que se escandalizam com estas práticas,
em geral se calam com medo de sofrerem sanções semelhantes.
Já acompanhei a utilização destas técnicas, e outras tantas que não
citarei aqui. Acrescento, no entanto, que uma das experiências mais
revigorantes é conversar com alguém que foi desprogramado. Há nele um
misto de alívio e de raiva, alívio por ver-se capaz de pensar novamente, e
raiva por sentir-se violado, usado e abusado pelos programadores. Não é fácil
realizar a desprogramação. Em geral, o aluno ou pastor que sofreu lavagem
cerebral evita o contato com desprogramadores, e quando não pode evitar,
como numa situação de sala-de-aula, como já aconteceu comigo algumas
vezes, o aluno condicionado reage, a princípio usando as técnicas que
aprendeu durante sua programação. Ao perceber que estas não produzem o
resultado esperado, o aluno pode ficar violento. Às vezes, o professor
desprogramador pode encontrar um termo-chave da programação, e, se
insistir em usá-lo em frases específicas de desprogramação, poderá levar o
aluno a momentos de profunda angústia, tremores e sudorese, e até ao
colapso e perda dos sentidos. Mas que alegria quando uma pessoa
condicionada volta à reflexão livre e sadia, ainda que saibamos que um
período de acompanhamento será necessário para o completo
restabelecimento do indivíduo em questão.
Estas considerações sobre condicionamento e lavagem cerebral, como
conseqüências últimas e mais trágicas do sectarismo e da falta de diálogo, nos
levam diretamente ao próximo assunto, pois o intolerante indisposto ao
diálogo tem o obscurantismo como filosofia de trabalho.
3. Clareza em vez de Obscurantismo

O extremismo teológico de qualquer espécie acaba por levar à adoção do


obscurantismo como regra fundamental. Obscurantismo significa opor-se ao
esclarecimento das idéias. Uma das principais características da sectarização
é manter o indivíduo no escuro, é deixá-lo incapaz de pensar por si mesmo,
evitar que experimente o diálogo com quem pensa diferente, protegê-lo de
materiais didáticos que possam vir a confundir a sua programação, a sua
lavagem cerebral. É a essa prática que chamamos de obscurantismo.
O obscurantismo assume, no entanto, muitas formas. Uma das vias
comuns é negar o valor do estudo puro e simples, inclusive do estudo
teológico. Ele se manifesta através de frases do tipo: “a igreja precisa de
pastores e não de teólogos”. Ou afirmações como: “o importante é a prática e
não a teoria”, ou “para ser pastor ou para trabalhar na igreja é preciso
apenas ser ungido, não é preciso ter estudado”. Estas são algumas típicas
falácias obscurantistas.
Não estou dizendo que todo pastor precisa necessariamente passar por
uma formação teológica formal em instituição de ensino teológico. As escolas,
em geral, apenas fingem que ensinam, de qualquer forma, e sempre se corre
o risco de se cair numa escola sectarista de condicionamento do pensamento
ou indoutrinação ideológica. Toda educação é, no frigir dos ovos, auto-
didatismo, uma vez que mesmo os casos de sucesso da educação formal
dependeram e dependem basicamente do esforço pessoal dos alunos.
Mas há tipos mais sutis de obscurantismo, e é com estes, acima de tudo,
que devemos nos preocupar. Há o tipo que sugere que não há nada de
aproveitável nas ciências, com exceção da teologia, desde que estejamos
falando, é claro, da forma de teologia específica defendida pelo extremista
em questão. Os extremistas dizem: “Por que estudar psicologia, por exemplo,
se tudo que precisamos saber sobre o ser humano, a personalidade humana, o
tratamento dos problemas psicológicos do homem, e todas as respostas sobre
o assunto já estão na Bíblia? Por que estudar sociologia? Filosofia então, nem
convém mencionar, pois é antagônica à fé e ao cristianismo. Linguística ou
semiótica? Nada poderia ser mais nocivo ao pensador cristão. Será que as
pessoas não percebem que quem estuda filosofia, ciências humanas ou
linguística, acaba por questionar formulações doutrinárias, e começa a querer
dar novas interpretações dos textos bíblicos, e passa a ser muito crítico do
trabalho da igreja? É cilada de Satanás! Não podemos permitir que nossos
pastores e seminaristas se promiscuam dessa forma”, e outras colocações
semelhantes. Isto é obscurantismo, e eu tenho visto este tipo de
obscurantismo sendo praticado nas igrejas e nas escolas de teologia
evangélicas e até algumas que se dizem reformadas.
Veja que ninguém se iluda com a presença destas disciplinas na grade
curricular de seminários. Estes cursos são, em geral, de valor meramente
decorativo na grade, são os chamados “cursos cosméticos”. Neles ensina-se,
em geral, apenas um suposto conteúdo das disciplinas em questão, jamais
permitindo que estas sejam apresentadas aos alunos como perspectivas
científicas sérias sobre o conhecimento do mundo e do ser humano em toda a
sua complexidade. Muitas vezes estes cursos são ministrados por pastores que,
mesmo tendo diplomas nas áreas que lecionam, aproveitam-se da ocasião
para fazer apologética e ensinar idéias teológicas.
Para o indivíduo que possui uma fé firmemente enraizada no amor a Deus
e às Escrituras Sagradas, e que conhece bem a tradição cristã, que tem real
compromisso com Deus, o contato com outras ciências só pode ser benéfico,
ainda que venha a ler as obras de autores não somente não-cristãos, mas até
anti-cristãos. Se o indivíduo possui uma fé que se deixa escandalizar
facilmente por argumentos, é até benéfico que ele perca essa fé falsa e fraca,
para que, agora sim, sem a ilusão de que já crê, venha a ser alcançado pela
graça de possuir uma fé legítima, calcada no amor e na Palavra, sustentada
pela tradição.
Mas a pior forma sutil de obscurantismo, para um seminarista, pastor ou
pensador cristão, é o obscurantismo intra-teológico. Os extremistas o
praticam sem nenhuma vergonha disso, pois crêem com isso estar fazendo
uma guerra santa contra as heresias. O pressuposto aqui é que o pior inimigo
é aquele que diz ser amigo. Portanto, todos os autores que afirmam ser
cristãos, que dizem querer apresentar uma teologia ou um pensamento
bíblico, mas que estão em desalinho com o pensamento do indivíduo ou grupo
extremista em questão, serão inteiramente execrados como os piores inimigos
da verdade, como falsas testemunhas, como anticristos disfarçados, lobos em
peles de ovelhas, etc., pois se dizem cristãos ortodoxos, mas defendem
pontos-de-vista contrários aos defendidos pelo grupo extremista. Antes ler o
livro de um ateu que os livros de um teólogo deste tipo, livros estes que
jamais serão colocados ao alcance dos alunos, na livraria do seminário, por
exemplo, e às vezes nem mesmo em algum canto escondido da biblioteca.
Um ex-aluno de uma escola de teologia fundamentalista disse-me certa
vez que havia sido ensinado a ele que só o adentrar em uma livraria católica
já era um sério pecado, do qual precisava se confessar. Esse mesmo aluno,
certa noite, chegou a derramar lágrimas de arrependimento, por ter lido um
trecho de um livro de estudos bíblicos publicado pelas Edições Paulinas. Esse
tipo de obscurantismo tem que acabar se quisermos fazer parte de uma
denominação sã.
Caminhamos, portanto, nesta estrada de purgação dos extremismos, da
intolerância ao sectarismo, do sectarismo ao obscurantismo, e agora seguimos
à conseqüência direta do obscurantismo: o belicismo. Como cura, propomos a
tolerância, que leva ao diálogo, que leva à clareza, que leva ao espírito
irênico.
4. Irenicidade em vez de Belicismo

O fruto do obscurantismo é a ignorância, e o fruto do sectarismo é a


indisponibilidade e incapacidade para o diálogo. A conseqüência de tudo isso é
o belicismo. O extremista desenvolve um espírito belicoso, pois não aprende a
debater idéias, mas antes a impor suas opiniões, se for preciso, à força. O que
propomos, em lugar desta belicosidade extremista é o espírito irênico, é a
disposição para um diálogo franco e amigo, é o respeito pelas pessoas, pois as
pessoas, e o relacionamento amoroso com estas, são mais importantes que
quaisquer idéias que se possa pensar irrefutáveis.
Recentemente eu fui chamado por alguém de belicoso. Esta pessoa, um
amigo meu, me disse: Ricardo, por que você entra tanto em controvérsias? Por
que você não escolhe um tema menos polêmico para tratar? Por que você
provoca os outros? Será que você não está sendo belicoso? Creio que agora é a
hora de responder esta acusação. De fato, eu poderia estar escrevendo sobre
um tema absolutamente não-polêmico. Poderia talvez fazer uma exposição
bíblica, escolhendo de propósito uma passagem sem grandes dificuldades.
Quem sabe eu agradaria a alguns com a retórica de meu discurso. Mas eu
estaria servindo a mim mesmo, ao meu bem-estar, e não estaria fazendo o
trabalho que Deus me chamou para fazer. É muito fácil permanecer na
complacência enquanto as pessoas jazem na ignorãncia, sofrendo o abuso dos
pastores e das igrejas, enquanto os seminaristas são vítimas de uma
ideologização deletéria, enquanto os extremistas (quer carismatistas, quer
liberais, quer fundamentalistas) acabam com a nossa denominação,
sectarizando-a, deformando-a, tirando-a da tradição cristã e reformada.
Eu não chamo isso de belicismo, no entanto; eu chamo de
responsabilidade. Para mim, belicismo é diferente. É indispor-se ao diálogo,
mas esfaquear pelas costas, falando mal, criando maledicências, fazendo
politicagem. O diálogo e o debate são irênicos, e é disso mesmo que
precisamos. Desses eu não fujo, antes eu convido para o debate de idéias. O
combate de idéias é um instrumento da paz e chama-se diplomacia. O
combate pessoal é que é belicoso, o argumento ad hominem, quando os fins
justificam os meios. Este belicismo é anti-ético. Ele é um ataque aos direitos
de expressão e de pensamento dos indivíduos, é tirania e ditadura intelectual.
Nosso povo tem memória curta. Poucos são os que ainda se lembram dos
horrores da ditadura militar, dos desaparecidos, das mortes, da censura.
Poucos também são os que lembram o que se passou em suas denominações: a
perseguição, a inquisição sem fogueiras, as acusações de comunismo que
levaram pastores e professores de seminário para a polícia. As imagens já
sumiram de nossa mente ou talvez nunca estiveram lá porque não nos foi
permitido conhecer os fatos. Igrejas fechadas com correntes e cercadas e
guardas com fuzis, seminários fechados, pastores com visão social tendo que
pedir a ajuda da maçonaria ou da igreja católica para fugir do país, sob a
acusação de estarem mancomunados com os terroristas. Só Deus sabe como é
que alguns seminários renitentes resistiram aos ataques que lhe foram feitos,
às tentativas de fechá-los.
Alguém pode vir a pensar, erradamente, que este espírito já não mais existe.
Mas é um engano. Ainda há grupos tramando o encerramento das atividades
de seminários. Ainda há pessoas sendo perseguidas por causa de suas idéias,
ainda que elas nada tenham de heterodoxas, ainda que a única razão para tal
perseguição seja o fato de serem idéias perigosas para a manutenção da
certos grupos e certas ideologias ultrapassadas dentro da igreja.
A ignorância leva à violência, e os grupos extremistas são ignorantes e
violentos. Basta trazer à mente as imagens de um fundamentalista islâmico
explodindo bombas em nome de sua fé. Basta trazer à mente as imagens dos
jovens fundamentalistas americanos que invadem as clínicas de aborto e
matam a balas os médicos que ali trabalham. Mas a violência também pode
ganhar a forma de perseguição, de demissão, de caça às bruxas. A violência
pode tornar-se também abuso verbal.
O que sugerimos é que haja paz. O que sugerimos é que haja amor. E
com isso o fim da violência em todas as suas formas e manifestações. É
preciso que aprendamos a conviver com as divergências, pois elas estão aí
para ficar, e não se resolvem divergências com tapas e gritos, com opressão e
perseguição, mas com diálogo e convivência pacífica. As pessoas são mais
importantes que as idéias, que os movimentos ou nossas convicções
doutrinárias ou litúrgicas.
Se não nos sentimos capazes de amar aqueles que pensam diferente de
nós, então é melhor desistirmos de carregar o nome de cristãos. Ser um
cristão significa viver como um cristão, e isto, por sua vez, significa amar.
Amar implica em tolerância. Só devemos ser intolerantes, no entanto, contra
a própria intolerância, pois esta nos proíbe de sermos tolerantes. Se não
formos intolerantes contra toda forma de intolerância, os intolerantes
assumirão o controle das instituições e impedirão que se pratique a tolerância
em qualquer esfera e em relação a qualquer pessoa ou grupo. Por isso, é
absolutamente necessário que esta exceção seja feita, que os tolerantes
sejam intolerantes contra todas as práticas de intolerância, essa intolerância
que não quer o diálogo, pois defende o obscurantismo e impõe-se por meio do
belicismo abusivo.
5. Confessionalidade em vez de Dogmatismo

O cristianismo possui dogmas. O abandono destes dogmas representa o


abandono do cristianismo. O erro, portanto, não está na existência e
aceitação dos dogmas, mas sim no dogmatismo, isto é, na absolutização dos
dogmas, na dogmatolatria, a transformação dos dogmas em ídolos colocados
onde só Deus pode estar, como alvos do culto reverente dos fiéis, como
depósito de nossa confiança, e objeto de nossa adoração.
O dogmatismo se revela em sua face obscura quando um indivíduo ou
instituição não permite que as doutrinas, geradas a partir dos dogmas
fundamentais, sejam investigadas, pensadas e repensadas pela comunidade
cristã, e em especial pelos pensadores cristãos que fazem parte dessa
comunidade. No momento em que eu cristalizo uma determinada formulação
doutrinária, uma determinada interpretação do dogma, e proíbo o debate e
cerceio a atualização da doutrina, eu estou colocando a minha formulação
doutrinária no lugar da Palavra de Deus, transformando-a num ídolo.
É isso que fazem os chamados “guardiões da sã doutrina”, um
esquadrão-da-morte da teologia que não permite à igreja o seu legítimo
direito de fazer reflexão teológica. Estes senhores julgam-se na obrigação de
proteger as doutrinas das más compreensões e alterações a que elas estão
sujeitas quando entregues às cabeças pensantes nas igrejas, para os
pensadores cristãos. Tal protecionismo paternalista é inadmissível. Esta ação
ignora o sensus fidelium da comunidade cristã. A igreja é desonrada por essa
ação, é desvestida da sua dignidade de povo de Deus, Corpo de Cristo e
morada do Espírito. Não existe na igreja esse ofício imaginário, esta função
inventada de guardião da doutrina. Certamente não é assim que se comporta
um genuíno mestre cristão. O mestre cristão sabe que serve a igreja à qual
ele pertence, e deve obedecê-la no serviço de pensar a tradição para ela, e
que não deve oprimi-la no falso serviço de ensinar e impor à igreja a doutrina
que supõe ser correta.
Precisamos sim de teólogos, de pensadores que examinem as doutrinas
na forma como as recebemos dos nossos antepassados, e façam sugestões para
a sua ampliação, alteração, adaptação, atualização ou conservação, e então a
igreja de Cristo, só a igreja e toda a igreja, é quem vai inexoravelmente
decidir se irá adotar a nova formulação doutrinária ou permanecerá com a
anterior. Esta é uma roda que precisa mover, a roda do feedback entre o
teólogo e a igreja.
As heresias e extremismos descabidos surgem na igreja, não como fruto
da reflexão teológica na igreja, mas pelo contrário, como fruto da falta dela.
É precisamente porque a roda da reflexão teológica na igreja emperra que as
novidades dos extremistas e visionários atraem os incautos. Os desvios
doutrinários e movimentos heréticos surgem, não por causa de um deslize no
trabalho dos auto-intitulados guardiões da sã doutrina, mas sim por causa da
própria existência destes guardiões, emperrando a roda da reflexão teológica
da igreja, pela igreja e para a igreja. O que a igreja precisa é o
revigoramento das escolas superiores de teologia para que se transformem em
verdadeiras academias de reflexão teológica, a restruturação da escola
dominical e o revigoramento da nossa atividade editorial, para que não sirvam
mais aos interesses dos dogmatistas e sim da reflexão teológica da igreja.
Não há nada erra com o fato de uma igreja ser confessional. Sua
confessionalidade é uma forma de auto-garantir-se de que manter-se-á dentro
dos limites do ensino escriturístico. Todavia, muitos têm confundido
confessionalidade com confessionalismo. O confessionalismo é uma forma de
dogmatismo, e é muito nocivo à saúde teológica de uma pessoa, instituição ou
igreja. O confessionalismo é uma atitude diante do fazer teológico que emula
o fazer teológico do século 17, quando a reflexão teológica protestante se viu
dominada pelo escolasticismo protestante, de cunho aristotélico, que levou a
melhor sobre o esforço humanista dos primeiros reformadores logo a partir da
segunda geração, motivados que estavam pelas guerras religiosas e pelo medo
de se verem acuados pelo avanço da ciência e da filosofia modernas. Mas
confessionalismo e confessionalidade são coisas bem distintas. Esta última
implica em liberdade de reflexão, necessária em um mundo em
transformação, e inevitável a partir do momento em que se adquire
consciência histórica, enquanto que a primeira nos lança no limbo das
logomaquias escolásticas dos debates sobre minúcias na interpretação estéril
de textos de velhos catecismos.
As igrejas reformadas, evangélicas e protestantes, precisa pensar no
sentido da sua confessionalidade. É preciso, em prol da clareza, da precisão e
do incessante combate contra as forças do obscurantismo, analisar o conceito,
explicitar o seu sentido, enfim, definir o que se entende por
confessionalidade.

a) Esferas da Confessionalidade
No seu sentido mais lato e mais antigo, a confessionalidade cristã
significa reconhecer o senhorio de Cristo, isto é, poder afirmar “Cristo é o
Senhor” com todas as implicações teológicas e práticas desta proposição.
Contudo, um protestante confessa uma fé cristã qualificada, e um calvinista
professa sua fé diferentemente de um luterano. Há, no entanto, mais de um
tipo de calvinista. A tradição reformada é rica e variada. Há calvinistas
puritanos (com diferentes nuances), há calvinistas continentais (que podem
pertencer à tradição calvinista holandesa, francesa, suíça, húngara, etc.), e
há diferentes confissões de fé calvinistas, sendo que a Confissão de Fé de
Westminster é apenas uma delas. Além disso, a tradição calvinista não está
morta nem ossificada, mas viva como a língua portuguesa, sendo
transformada à medida em que os séculos se sucedem. Diante desta
pluralidade de confissões e confessionalidades, pode-se perguntar então se,
por fim, a mais antiga das confissões, “Jesus Cristo é o Senhor”, já não traz,
uma vez compreendidas todas as implicações práticas e teológicas da
proposição, tudo que é essencial na confessionalidade cristã e,
particularmente, na presbiteriana. A IPB, por exemplo, escolheu a CFW, o
Catecismo Maior e o Breve Catecismo como seus símbolos de fé. Eles ilustram
e exemplificam a exposição da fé calvinista presente nas diversas confissões
reformadas e, por fim, nossa confessionalidade última que é a confissão do
senhorio de Cristo, como ele mesmo ensina nas Escritura: “todo aquele que
me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai
que está nos céus” (Mt 10:32). O cristão confessa a Cristo. Sistemas
doutrinários são meios para isso, e não fins em si mesmos.

b) Confessionalidade ou Confessionalismo?
Queremos ser uma igreja confessional ou confessionalista? Uma igreja
confessionalista abraça uma confissão doutrinária específica como inerrante,
inquestionável e de sentido óbvio, como se a confissão em questão não fosse
um texto carecendo ele mesmo de ser interpretado. A própria CFW reconhece
sua falibilidade: “Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos,
quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles,
portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados
como auxílio em uma e outra coisa” (31:3). A CFW (produzida por um concílio
de ministros reunidos na Abadia de Westminster em Londres na década de
1640-50) submete-se ao crivo das Escrituras, remetendo-nos à Palavra de Deus
(1:8, 9 e 10), à luz da qual deve ser criticada. Confessionalidade, portanto,
não implica necessariamente em confessionalismo, que é um posicionamento
teológico prejudicado, como toda postura fundamentalista é, pelos
pressupostos cartesianos da filosofia moderna. A IPB pode ser entendida como
uma igreja confessional porque adotou três símbolos de fé reformados, a CFW
e os catecismos, como exemplos de exposições fiéis do ensino das Escrituras,
e não como as únicas formas de expor fielmente o ensino das Escrituras.
Entendo que a IPB não é confessionalista porque reconhece na própria Palavra
de Deus a última instância de apelo em questões de fé e de prática. O grande
mérito da CFW é precisamente o fato de reconhecer-se enquanto
interpretação falível, condicionada sócio-histórica, cultural e
linguisticamente, e criticável á luz das Escrituras. Por estas razões, de todas
as confissões reformadas, ela é a melhor para subscrevermos.

c) A Dimensão Prática da Confessionalidade


Em terceiro lugar, perguntemo-nos o que deve significar, na prática,
confessarmos a Cristo e, conseqüentemente, subscrevermos a símbolos da fé
reformada como a CFW e os catecismos. Certamente não significa apenas nem
principalmente concordarmos racionalmente com as verdades ali
apresentadas. Este tipo de fé redundaria numa espécie de obra salvadora,
idéia contrária à própria CFW (14:2). Significa, isso sim, vivermos a fé ali
descrita, encarná-la, torná-la uma fé viva, atuante e transformadora. Alguns
subscrevem a CFW porque foram convencidos racionalmente da veracidade do
seu conteúdo. Outros a subscrevem porque a fé ali verbalmente confessada
transformou as suas vidas, fazendo-os nova criação em Jesus Cristo,
restaurando de fato, e não apenas teoricamente, sua vida relacional,
reconciliando-o com Deus e com o próximo em amor, ainda que a CFW seja
omissa no que se refere ao amor ao próximo. Pode-se dizer que a IPB é uma
igreja confessional porque ela confessa e vive na prática a fé confessada nos
seus símbolos de fé. A falta de amor e de ética representam uma quebra mais
grave da nossa confessionalidade do que a crítica pertinente aos artigos da
própria CFW. Eu quero crer que a IPB não adota um confessionalismo estéril,
fundamentado na letra, sustentado por uma compreensão racionalista da fé.
Nossa fé é viva como é vivo o testemunho de fé das confissões reformadas que
a CFW e os catecismos representam quando os adotamos como nossos
símbolos de fé. Este foi o espírito da sua adoção, e este deve ser o espírito da
nossa confessionalidade.
6. Humildade Noética em vez de
Presunção Epistemológica

O mundo moderno foi construído a partir de bases filosóficas


racionalistas. Crê-se na supremacia da razão sobre outras faculdades humanas
igualmente importantes. Crê-se na autonomia da razão, na sua independência
em relação a estas outras faculdades humanas.
Além disso, crê-se ser possível deduzir verdades objetivas a partir de
proposições lógicas que são inferidas de outras proposições lógicas até que se
chega a axiomas que são aceitos como pressupostos do senso comum ou coisa
do gênero. Abraça-se a lógica aristotélica e a metafísica platônico-aristotélica
sem nunca se questionar se estes constructos teóricos humanos e pagãos não
são passíveis de crítica.
A partir daí erguem-se os grandes sistemas teológicos racionalistas, as
catedrais da mente, a teologia escolástica que tanto prazer estético confere
aos seus adeptos, mas que não são necessariamente condizentes com uma
existência e uma reflexão genuinamente cristãs.
Muito pelo contrário, os cristãos têm, tradicionalmente, rejeitado a
opção racionalista, abraçada igualmente por liberais e por fundamentalistas,
e reconhecido a dimensão misteriosa, enigmática, paradoxal, mística e
sobrenatural da vida e do mundo.
Além disso, o cristão reconhece os limites de sua mente, de sua
capacidade de compreensão, ainda mais quando se trata de Deus e sua obra.
Os extremistas, no entanto, sejam eles liberais, fundamentalistas ou
pentecostais, vangloriam-se na sua presunção epistemológica, acham-se donos
da verdade, guardiões da sã doutrina, capazes de explicar os mistérios de
todos os dogmas, da trindade à encarnação do Verbo, da revelação à eleição,
dos sacramentos às últimas coisas.
Estes supostos donos da verdade são capazes de expor com certeza o
sentido das passagens mais herméticas das Escrituras, seja porque receberam
uma revelação adicional, como é o caso às vezes entre os pentecostais, seja
porque aplicaram ao texto os cânones infalíveis da ciência, como acontece
entre os liberais, ou seja porque adotam certos a-priores racionalistas que
fazem da hermenêutica uma espécie de ciência exata, em que se aplicam
fórmulas cartesianas e chegam-se a resultados previsíveis.
Os fundamentalistas colocam as verdades dogmáticas acima das
verdades bíblicas e acham que estas últimas equivalem sempre às primeiras.
O sistema de doutrinas passa a ser o critério hermenêutico através do qual
toda leitura da Bíblia passa a ser feita. Em vez de valorizar as Escrituras, com
sua conversa fiada inerrantista, os fundamentalistas, na prática, humilham a
Palavra de Deus fazendo-a submeter-se aos dogmas da tradição e retirando da
Bíblia sua condição de instância última de apelação em questões de fé e de
prática. Em vez de fazer da Bíblia o critério para a avaliação da tradição,
fazem da tradição dogmática o critério para a interpretação da Bíblia.
Tudo isso é presunção epistemológica. Nós temos a Palavra de Deus, mas
só Deus pode afirmar conhecer a interpretação correta de todos os versículos
da Escritura, e o resto é prepotência humana. Nós temos a tradição
doutrinária, mas só Deus possui em sua mente a verdadeira sistematização das
verdades eternas da sua revelação, o resto e pedantismo e vaidade.
O verdadeiro temor de Deus é reverência diante do mistério e espanto
diante da profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus.
Os extremistas de todo tipo acham que podem engarrafar a Deus e sua obra,
mas não podem. Isto não passa de soberba e presunção.
O mistério de Deus e sua obra é inerente à fé. A rejeição do mistério é
uma atitude racionalista tanto dos liberais quanto dos fundamentalistas. A
tentativa de controlar, catalogar e fazer uso do mistério da fé é misticismo
emocionalista superficial dos carismatistas. Este controle de Deus é
paganismo, é uma forma de bruxaria. Feitiçaria é utilizar objetos e palavras
mágicas para controlas forças naturais e sobrenaturais. Muitas igrejas ditas
evangélicas estão fazendo justamente isto, transformando os objetos do culto
e da devoção em amuletos e fazendo das orações e louvores não mais que
palavras mágicas para o controle de Deus, de anjos e de demônios. Tudo isto é
um lamentável engano, uma exploração da crendice do povo inculto e uma
afronta ao genuíno espírito da reforma que combateu arduamente todas as
formas de superstição cristã medieval semelhantes a estas.
Os fundamentalistas, por outro lado, remetem-nos ao neo-escolasticismo
protestante, ele mesmo um desvio da reforma e um retorno ao escolasticismo
medieval, como modelo de reflexão teológica. Isto não pode continuar. É
preciso que retornemos à reflexão teológica sadia, criativa e acima de tudo
bíblica dos reformadores. Toda nossa reflexão teológica deve ser calcada nas
Escrituras e na missão sagrada da Igreja de Cristo. Toda tradição dogmática
deve ser posta em juízo diante da autoridade das Escrituras e da premência
da missão.
A presunção epistemológica racionalista gera atitudes que não são
proveitosas, levando grupos de indivíduos a extremismos condenáveis.
Precisamos nos precaver contra isto cultivando um espírito de humildade e
reverência diante de Deus.
7. Valorização e Dignificação das Escrituras
Sagradas em vez de Superficialismo
Biblicista

Vocês já repararam a escassez de comentários bíblicos no Brasil? Se não,


eu lhes digo: é assustadora e preocupante. Isto não acontece por acaso nem
somente por questões mercadológicas. Há uma motivação ideológica por trás
disto, uma vez que a maioria das editoras evangélicas brasileiras ainda se
encontra sob influência do fundamentalismo que almejamos extirpar do solo
pátrio.
Vale fazer uma comparação: se vou a uma boa livraria evangélica nos
EUA, encontro pelo menos cinco, talvez dez, opções de comentários recém
lançados para cada livro da Bíblia. Se vou à biblioteca de um seminário
americano, posso chegar a empilhar cem volumes sobre a mesa, se resolver
fazer uma pesquisa. No Brasil, encontro dois ou três comentários fininhos de
cada livro.
Quando pergunto aos editores o porquê disso, eles me respondem
pragmaticamente que os comentários não têm muita saída no Brasil, isto é,
não vendem bem. De fato, eu perguntei certa vez a um estudante se ele
gostaria de ganhar um comentário da carta aos romanos, e ele me respondeu
que não precisava, pois já possuía um escrito por um outro autor.
Certa vez, um fundamentalista confesso me disse que achava bom não
termos muitos comentários, pois a divergência de opiniões nos comentários
pode causar a impressão nos estudantes que há mais de uma maneira de se
entender o texto bíblico. A falta de comentários, assim como a falta de
interesse em comentários bíblicos, deixam transparecer um problema da
igreja: a opção pela superficialidade.
Estamos nos acostumando a não pensar, ou, quando fazemos nossa
reflexão bíblica, seguimos a lei do mínimo esforço, aceitando a primeira
interpretação que aquiete a nossa boba ansiedade diante do texto aberto. Mas
não adianta eu me iludir achando que o texto está fechado quando na verdade
ele está aberto sobre a mesa, sendo debatido pelos quatro cantos da terra, e
só eu continuo achando que o sentido do texto é esse que eu aprendi quando
tinha dez anos na escola dominical.
Certas explicações servem para criancinhas de dez anos, mas já não
deveriam servir para adultos de vinte, trinta ou oitenta anos. Não podemos
parar de estudar a Bíblia. É um projeto de vida. E não adianta somente ler a
Bíblia inteira todo o ano. No fim da vida você terá lido a Bíblia sessenta vezes
sem ter entendido nada.
Cada texto bíblico é abissal por natureza e seu sentido não pode ser
esgotado. Nenhuma exegese pode ser definitiva, pois isto nos levaria a um
exegema, uma exegese cristalizada ou engessada, o que não está de acordo
com o bom-senso nem com o princípio protestante. A investigação do sentido
dos textos bíblicos continua inevitavelmente e sempre, pois os achados
arqueológicos continuam, bem como as pesquisas sócio-históricas e também a
ciência lingüística e dos estudos literários. Não há como deter a constante
renovação do processo interpretativo e, logo, não há como chegarmos a uma
interpretação definitiva e exaustiva de qualquer texto, o que aliás, é muito
bom.
Por outro lado, a Bíblia não é tão pouco para ser usada como um oráculo.
Eu a abro ao léu e leio o primeiro versículo que vejo, e eis meu horóscopo
para o dia. Isso é falta de seriedade e de reverência, e é mera superstição. As
velhas caixinhas de promessa deveriam ser para sempre aposentadas, pois
geram a superstição e o biblicismo.
O biblicismo possui duas caractyerísticas básicas: o literalismo e o
atomismo bíblicos. O atomismo é interpretar um versículo ou uma passagem
da Bíblia como se esta não estivesse dentro de um contexto específico,
esquecendo que um texto tirado de seu contexto só pode ser um pretexto
para a manutenção de uma ideologia ou legitimação de uma instituição
eclesiástica.
O verdadeiro pensador cristão mantém-se sempre distante destas
atitudes por meio de checagens e auto-exames que o façam saudavelmente
desconfiado das idéias dos outros e das suas próprias. Assim, evita-se a
absorção inconsciente de uma ideologia espúria, bem como evita ao cristão
tornar-se um instrumento nas mãos da sua denominação para a sua
legitimação. Ninguém deve deixar-se usar pelas igrejas ou denominações, pois
isto é abuso. Ninguém deve deixar que a denominação faça a extorção de seu
dinheiro, tempo ou liberdade de expressão e de pensamento.
O atomismo bíblico ignora o lema da reforma protestante que diz ser a
Escritura o parâmetro para a interpretação da própria Escritura. Este ema não
apenas evita o dogmatismo hermenêutico, mas também o atomismo, pois todo
versículo bíblico deve ser sempre compreendido à luz do ensino integral das
Escrituras. Somente o ensino completo do cânon pode servir de base para a
formulação doutrinária e para a crítica doutrinária.
A Bíblia precisa ser estudada com profundidade, não superficialmente.
Os extremistas não querem isso, pois o estudo livre e aprofundado da Bíblia
pode fazer com que as pessoas saiam do domínio dos líderes carismáticos,
pode libertar as pessoas das amarras da lavagem cerebral, podem levar as
pessoas a questionar certas convicções que são importantes para a
manutenção da ideologia destes grupos. E não foi por isso que os
reformadores lutaram, trabalharam e deram suas vidas para que o povo
pudesse ler a Bíblia no vernáculo? Não foi por isso que os reformadores
abraçaram a causa da alfabetização e da educação?
E é por isso mesmo que precisamos capacitar o povo cristão hoje para
que tenha em mãos as ferramentas necessárias para que façam a investigação
das Escrituras sem estarem submetidos aos grilhões e à tutela dos guardiões
da doutrina ou de líderes interesseiros ou de movimentos ideológicos dentro
da igreja.
O estudo aprofundado traz a compreensão e a liberdade de pensamento.
Nunca foi tão importante ensinar a ler. Saber ler é mais que meramente
soletrar as palavras, mas saber interpretar os textos e até mesmo as suas
entrelinhas. Falta hoje boa-vontade e até mesmo interesse na leitura
profunda de textos e até mesmo das Escrituras. Parece bem mais fácil
entregar a tarefa ao pastor ou aos chamados guardiões da reta doutrina para
que eles determinem o que devemos crer e pensar. O espírito da reforma
protestante era outro, no entanto: a Bíblia na língua de cada povo e nas mãos
de cada crente para que cada indivíduo faça o livre exame das Escrituras por
si mesmo e chegue, por convicção pessoal, a uma resposta também pessoal à
vocação que o texto bíblico contém.
8. Pluralidade em vez de
Exclusivismo ou Inclusivismo

Há quem diga que o cristão deve combater o que os incrédulos chamam


de pluralismo. Tudo depende, no entanto, do que se entende por pluralismo,
pois há uma diferença importante entre pluralismo e pluralidade ou
diversidade.
Eu entendo que há uma forma de pluralidade pela qual nós também
devemos lutar e que é adequada para a vida social e é, em última análise,
consistentemente cristã. A tradição protestante e a tradição calvinista sempre
foram plurais e cheias de originalidade e diversidade. Os fundamentalista e
puritanos anseiam pela uniformização como elemento unificador, mas isto não
está de acordo com a cosmovisão protestante. A unidade é sadia, mas a
uniformidade é doentia.
Por outro lado, o cristão do século 21 tem por obrigação defender a
democracia e até mesmo o pluralismo religioso e sócio-político como males
menores, como as formas menos más de convívio social. Toda democracia que
se preze é pluralista.
O que não podemos aceitar é a imposição extremista liberal e pós-
moderna do inclusivismo, isto é, sermos forçados a aceitar a mistura de tudo
para todos. Um pouquinho disso e um pouquinho daquilo até termos uma
salada russa em que já não se distingue o gosto de nada. Isso sim, não
podemos nem nunca poderíamos tolerar, os liberais, com suas cerimônias
ultra-ecumênicas, que nos desculpem.
Por outro lado, também não podemos aceitar a posição extremista
advogada pelos fundamentalistas, que é o exclusivismo. O fundamentalista,
por achar-se dono da verdade, sente-se no direito de impor uma única forma
de culto e um único estilo de vida, o dele, é claro.
O fundamentalista de hoje só não queima as bruxas e os hereges porque
a lei não permite, mas caso chegassem ao poder civil, correríamos o sério
risco de ver a bruxaria, a heresia, e talvez muitas outras coisas, serem
declaradas ilegais, e até passíveis de pena de morte.
O seu extremismo leva o fundamentalista a querer a proibição e o
fechamento de qualquer escola que propague idéias ou doutrinas contrárias às
que defende. O fundamentalista gostaria de ver todas as igrejas que considera
hereges, inclusive a catolicismo romano, as sinagogas, etc. fechadas,
proibidas, eliminadas, e seus líderes queimados em praça pública.
Agora você dirá que eu estou exagerando, que não há ninguém no Brasil
que alimente estas fantasias. E eu lhe responderei: não sejamos inocentes.
Adolf Hitler não subiu ao poder dizendo que iria exterminar os judeus, mas
quando chegou lá, ele tentou fazê-lo. Hoje, se lermos o seu Mein Kampf,
escrito quando ainda era um político principiante e insignificante, podemos
perceber que suas idéias já estavam todas ali presentes.
Hoje os fundamentalistas e puritanos ensinam que as mulheres devem
ficar em casa, pois sua missão é apenas a de gerar filhos e criá-los, deixando
ao homens a tarefa e governar e explorar o mundo. As mulheres não devem
trabalhar, dizem eles, e conseqüentemente não devem fazer curso superior,
pois estes visam a profissionalização. Mas quem garante que estas tendências
talebânicas do fundamentalismo protestante não acabará por instituir uma
espécie de burqa como vestimenta para as mulheres?
Estes posicionamentos extremistas anti-femininos são uma aberração,
uma violência e uma forma inaceitável de opressão e dominação. Muito pelo
contrário, devemos nos aliar ás causas libertárias que dignificam a mulher. Já
é tempo, inclusive, de conceder às mulheres o espaço que lhes é de direito na
liderança das igrejas locais e das denominações protestantes.
É preciso abrirmos nossos olhos, pois nossas igrejas já sofreram demais
com as posições extremistas. Foram mais de trinta anos de retrocesso
teológico, mais de trinta anos em que deixamos de ser ativos na sociedade,
em que caminhamos para a sectarização regidos por um grupo de indivíduos
que estão mais para ditadores latino-americanos que para apóstolos, mais
para coronéis nordestinos ou caudilhos dos pampas que para líderes
democráticos de uma igreja naturalmente eclética e plural. Deus nos livre de
vermos outra época como aquela, pois foi uma época de violências, de
perseguições, de denúncias injustas, de censura e cerceamento, de caça às
bruxas e de inquisição sem fogueiras.
Não queremos o inclusivismo dos liberais nem o exclusivismo dos
fundamentalistas. Queremos o progresso da reforma, a diversidade eclesial e
teológica e o pluralismo democrático que defende os direitos do indivíduo, o
direito de culto, de ir e vir, de expressão, de pensamento.
Deus nos dê a graça de continuarmos sendo uma igreja em que a
pluralidade é valorizada e preservada com carinho, ainda que permaneçamos
ao mesmo tempo firmes nas nossas convicções confessionais. A
confessionalidade da igreja não impede que ela seja também libertária para
com seus membros, e aberta ao diálogo com os de fora, irênica e amorosa
para com todos.
Como nos ensina o antigo ditado: no essencial a unidade, no que não é
essencial a diversidade, e que em todos os momentos reine o amor.
9. Ação Social e Mandato Cultural
em vez de Guetoísmo Eclesiástico

Um dos maiores erros que a igreja pode cometer é fechar-se em si


mesma. Chamemos a isto de guetoísmo. Pregamos para nós mesmos e
cantamos para nós mesmos. Não nos preocupamos sequer em usar uma
linguagem que seja mais compreensível para aqueles que não freqüentam
nossos guetos. Consideramo-nos melhores que os outros, melhores que os
perdidos, sem perceber que só não somos perdidos por termos sido alcançados
pela graça e, conseqüentemente, termos sido vocacionados, em Cristo, para
viver em amor e serviço pelos perdidos.
Este foi o erro de Israel, posto em evidência no livro de Jonas. Israel
tinha ciúmes de Yahweh, um ciúme que não lhe permitia compartilhá-lo como
era sua missão fazer. Nós muitas vezes nos comportamos desta mesma forma,
e esquecemos de nossa obrigação para com a sociedade ao nosso redor.
Não podemos esquecer jamais que somos uma nação de sacerdotes, e
isso significa que o mundo e os povos do mundo são nossa responsabilidade.
Não estou falando aqui somente de evangelização mundial, mas também de
justiça social e na política nacional e internacional. A igreja deve ser a
primeira a envolver-se nestes assuntos. Não há força maior de pressão sobre
os governantes que a pressão que uma igreja pode fazer.
Como já disse alguém, a missão da igreja não se limita à difusão do
evangelho da graça, mas também inclui a infusão deste evangelho na cultura
em que vivemos. Ganhar o Brasil para Cristo é mais que fazer prosélitos para
as nossas igrejas. Ganhar o Brasil para Cristo é tornar a cultura brasileira
sensível e interessada nos valores do Reino de Deus.
Não é de se espantar que as igrejas não são perseguidas pelos políticos e
governos, uma vez que não têm cumprido o seu papel profético. É triste
quando constatamos que são os políticos evangélicos os primeiros a aprovarem
e praticarem a corrupção, o nepotismo, a fisiologia, as ações em interesse
próprio. Temos que nos envolver na vida da sociedade, nos problemas políticos
e econômicos do país, temos que insistir na instituição de princípios éticos na
política, e no desenvolvimento de um filosofia social e política cristã nas
nossas escolas superiores de teologia.
Não podemos também continuar dando prioridade às nossas atividades
intramuros. Não podemos achar que aquilo que fazemos aos domingos na hora
do culto é o elemento crucial e máximo de nossa obra. A igreja tem muito a
realizar pela sociedade e pelo país, e precisa começar a se mexer. A igreja
que fecha-se em si mesma torna-se guetoísta. O mundo pode ruir ao seu
redor, mas não tem problema enquanto o coral estiver bem ensaiado e o
pastor preparando sermões bem alinhavados. Isso é guetoísmo e nada pode
ser mais nocivo à vida da igreja e o cumprimento de sua missão.
É preciso sair para fora. Se o coral quer cantar, que cante nas ruas, nos
asilos, nos orfanatos. Se o pastor quer pregar, que pregue nas praças, nos
hospitais, nas empresas. E que a igreja se mostre presente, fazendo diferença
na cidade onde está, no bairro onde se localiza. A espiritualidade de uma
comunidade cristã se mede pelo que ela faz das portas da igreja para fora, e
não pelo que ela faz das portas da igreja para dentro.
Eu não estou falando de um evangelho meramente social. Eu não estou
falando de obras meritórias para alcançar o favor divino. Nem tampouco estou
eu falando de assistencialismo, ainda que situações emergenciais como há
tantas no Brasil, mereçam ação emergencial. São crianças de rua, são homens
de rua, são velhos de rua. Eles são os convidados que Jesus quer que
chamemos para o banquete. “Sai depressa para as ruas e becos da cidade, e
traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lu 14:21). Nós
não amamos a miséria e gostaríamos de nunca precisar contemplá-la.
Gostaríamos, até quem sabe, que o governo recolhesse os miseráveis para
algum lugar isolado e lá cuidasse deles para nós, para que não precisássemos
lembrar que eles estão aí, nas nossas ruas, nas nossas calçadas, bem defronte
às nossas casas bem decoradas. Mas eles estão aí, construindo favelas uma
após a outra, sendo atacados pelas doenças contagiosas em seus barracos
cheios de ratos, e depois vindo trabalhar em nossas casas, fazendo nossa
comida, cuidando de nossos filhos. Isso porque a pobreza traz em si mesma a
semente da sua vingança.
A pobreza e o pobre são tarefa da igreja. E Deus não nos deixará
impunes por desprezarmos a tarefa que nos dá para executar.
Muito além da ação emergencial, entretanto, está o compromisso com o
chamado mandato sócio-cultural das Escrituras. Temos um compromisso
diante de Deus de sermos seus colaboradores neste mundo, e isto implica em
abraçar o mandato sócio-cultural: preservação da família, estímulo à
educação, apoio à ciência, preservação do meio-ambiente, alimentação
saudável para todos, saúde e saneamento básicos, condições adequadas de
trabalho e descanso com lazer para todos. Sem lutar pelo cumprimento do
mandato sócio-cultural expresso nas primeiras páginas da Bíblia, não pode
haver cristianismo genuíno nem fé verdadeiramente bíblica.
10. Princípios Éticos e Responsabilidade
Pessoal em vez de Legalismo e
Pragmatismo Éticos

Fala-se muito em crise ética. Os alardes da crise estão, na verdade,


proclamando uma meia verdade. Existe sim uma crise, uma vez que existe
uma crise religiosa (o que é, na verdade, muito bom, pois religiosidade não
serve para nada, e é talvez um grande pecado) e uma crise filosófica. Há hoje
quem proclame aos quatro ventos a inexistência de qualquer absoluto, e há
aqueles que, desavergonhadamente, dizem ter certeza absoluta disso, apesar
da contradição lógica envolvida na afirmação. Esta crise da ética enquanto
disciplina filosófica tem sido acompanhada de uma crise comportamental que
sugere uma crise ética generalizada.
Mas, gostemos disso ou não, não é bem verdade. Estamos vivendo um
período áureo de ética pública e social. Nunca se puniu tanto a corrupção
política que sempre existiu, nunca se condenou tanto a guerra, o genocídio, o
preconceito em todas as suas formas, o racismo, o chauvinismo, nunca se deu
tanta atenção aos deficientes físicos, nunca se importou tanto com a infância,
nunca se viu tantas denúncias de abuso sexual de menores, nunca se
condenou tanto a má distribuição de renda, a exploração do homem pelo
homem, a escravidão e a semi-escravidão, nunca se viu tamanha devassa
contra as muitas atividades anti-éticas que sempre existiram encobertas por
uma crosta de moralidade burguesa hipócrita que parecia e ainda parece
igualar moralidade e pudicícia, como se toda atividade anti-ética tivesse algo
a ver com sexo.
Dizem haver uma crise de ética sexual, quem sabe pelo menos isso é
verdade. Mas talvez nem isso seja real. O adultério, a promiscuidade, a
prostituição, a fornicação, sempre existiram. A única diferença é que tudo
isso era feito em maior segredo. Agora tudo é feito mais às claras porque há
menos hipocrisia, o que é na verdade mais um progresso da ética que uma
decadência. Hoje a sociedade é mais honesta consigo mesma e não esconde as
suas práticas, e esse é um passo importante em direção da cura. Precisamos
parar de falar em crise ética no sentido de crise dos costumes. Nada mudou,
só há mais honestidade, mais franqueza, maior liberdade de expressão, mais
abertura para se confessar o que se quer. O que nos cabe fazer não é ficar
alardeando uma crise ética falsa como moralistas horrorizados. O que cabe à
igreja fazer é parabenizar a sociedade por enfim mostrar a sua cara com
honestidade, e agora explicar porque este comportamento não é bom, e
propor uma cura.
Eu não estou defendendo, evidentemente, nenhuma espécie de
liberação dos costumes, nem muito menos um relativismo ético. Pelo
contrário, minha luta é pelo revigoramento da ética enquanto disciplina
filosófico-teológica. Entretanto, não é apontando para versículos bíblicos que
vamos convencer a sociedade a mudar suas práticas sexuais e práticas de
violência, por exemplo. É preciso explicar o porquê das coisas, e esse é o
árduo trabalho e o grande desafio para a teologia reformada no século 21. O
que precisamos é proclamar uma revolução de princípios, um re-
escalonamento dos valores (i.e., uma nova taxionomia axiológica), o que
precisamos é abandonar o legalismo e uma ética vitoriana burguesa na forma
de regras biblicamente defensáveis e estabelecer uma ética cristã de
princípios biblicamente fundamentada que sirva para a realidade de nosso
tempo.
Será somente a partir desse momento que teremos a instrumentação
necessária para denunciar o pragmatismo ético que caracteriza a prática
eclesiástica evangélica hoje, com igrejas praticando o proselitismo de modo
descarado, com pastores dizendo literalmente que os fins justificam os meios
e enganando as pessoas com falsos espetáculos de curas e milagres, com
grupos fundamentalistas extremados praticando a sua guerra santa em prol da
chamada sã doutrina, destruindo carreiras, perseguindo pessoas, arrasando
famílias, matando indivíduos e explodindo bombas em nome de sua
religiosidade, em nome de sua posição doutrinária.
E como carecemos de fazer essas denúncias! Mas para fazê-las, é preciso
que não adotemos o mesmo pragmatismo ético de nossos adversários. É
preciso que o façamos por meio de uma revolução na ética, deixando de lado
uma ética legalista e moralista de acobertamento e utilitarismo e adotando
uma ética de princípios bíblica e cristã que não tolere mais o acobertamento,
o pragmatismo, a hipocrisia e a falsa moralidade burguesa, que insista nos
verdadeiros fundamentos da ética cristã: o amor, a justiça e a verdade.
11. Palavras Finais

Eu sei que este programa é, com seus dez ítens, bastante ousado.
Eu sei que os obstáculos são imensos.
Eu sei que muito do que foi dito precisa ser repensado, reexaminado,
recondicionado. Estou aberto às críticas construtivas. Nós precisamos de sua
ajuda.
Eu quero convidá-lo a aliar-se a mim e a muitos outros pensadores
cristãos brasileiros que pensam como eu e que querem reconstruir o
evangelicalismo no Brasil a partir do genuíno espírito do protestantismo e,
desta forma, promover o progresso da reforma protestante em nosso país.
A reforma não acabou! Há muito que fazer, há muito a reformar na
sociedade e na igreja. Como diz o lema da reforma, somos igreja reformada
e, conseqüentemente, sempre se reformando. Somos, portanto, mais que
reformados; somos reformacionais.
Nossa proposta é clara: queremos uma nova via que preze a
eqüidistância dos extremismos, que passe longe do carismatismo, do
liberalismo e do fundamentalismo. Queremos uma igreja evangélica tolerante,
anti-sectarista, aberta ao diálogo, aberta ao estudo e à pesquisa, irênica,
anti-obscurantista, anti-dogmatista, humilde epistemologicamente falando,
reconhecedora dos mistérios de Deus, pacífica, amorosa, que saiba valorizar
tanto a sua unidade quanto a sua diversidade, sem medo de se expor, atuante
na sociedade e eticamente sã.
Se essa é também a sua esperança, vamos trabalhar juntos em nome de
Jesus Cristo, nosso Senhor e salvador, no poder do espírito Santo e para a
glória única do Deus Triúno.

FIM